16/10/2025
O que é que nos liga ao Outro?
Na semana passada, fiz as unhas. Raramente vou ao salão e, menos ainda, faço as unhas. Eu toco violão, então, numa batida ou duas, elas descascariam. Por que fazê-las? Nunca me interessou.
Ver minhas unhas feitas nessa semana me fez lembrar de uma história que vivi no ensino médio. Eu estudava à tarde, mas, para o último ano, precisei mudar de turno para não mudar de escola.
Sempre gostei de sentar na carteira na parede, na frente dos professores. Gostava de conversar com eles. Mas quando cheguei no primeiro dia de aula, me dei de cara com umas cinco ou seis meninas que eram amigas havia mais tempo, com várias construções em comum, fechadas na sua panelinha. Pedi para sentar na primeira carteira, argumentei de todas as maneiras possíveis e elas insistiam que eu era novata e tinha acabado de chegar. Já estavam ali antes. Com muito custo, convenci de colocar uma carteira a mais, argumentando que isso não alteraria o que era delas, e elas toparam.
Passamos semanas quase sem conversar. Não tínhamos nada em comum. Elas ficavam no espaço delas, e eu no meu. Um dia, eu, que tocava violão e nunca fazia as unhas, resolvi passar um esmalte entre vermelho e laranja nos dedos.
Foi adentrar a sala, pisando os tacos no chão, que as cinco se levantaram, gritando “Alá a Cecília, de unha pintaaaaadaaaaa!” e, num piscar de olhos - ou numa pincelada nos dedos -, eu era da panelinha “das meninas”.
Fui convidada para aniversários, tirávamos fotos, elas me incentivavam a dançar e tiravam minhas sobrancelhas. Eu ajudava em alguma matéria que elas não entendiam. Não me lembro de ter pintado as unhas novamente… mas o engate já estava feito. Éramos muito amigas!
Nesses últimos dois anos lendo o dificílimo seminário 9 sobre a identificação, de Lacan, fico pensando na beleza de pensar que, do Outro, resta apenas um traço que se escreve. Traço esse que não sabemos qual é, e não podemos prever. Lindo, né?