Casa da Spyller - A Alquimista Espalhadora - Psicologia Junguiana

Casa da Spyller - A Alquimista Espalhadora - Psicologia Junguiana Na Casa da Spyller os convidados ouvirão sobre lendas brasileiras, contos de fadas, mitologia, sonhos, arte, filmes Tudo com uma pitada do olhar junguiano.

A Spyller os convida a conhecer seu universo imaginário. Ela adora conhecer os mundos e há muitos mundos no mundo. Em cada canto da casa vocês encontrarão um pensamento ou uma análise feita através dos olhos da Spyller, a alquimista espalhadora. Cada cômodo (álbum) uma surpresa. Divirtam-se.

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22/02/2026

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PSICOLOGIA DA DECEPÇÃO – o colapso dos sentidos



A decepção é uma experiência emocional universal — ela nasce do
confronto entre expectativa e realidade.

Psicologicamente, não é apenas “f**ar triste”: é um pequeno colapso
dos sentidos. Algo em que investimos afeto, confiança e esperança falha em
corresponder, e o psiquismo precisa se reorganizar.



O que acontece psicologicamente?

Quando uma expectativa signif**ativa, seja de uma situação
seja de uma relação é frustrada, psicologicamente ocorre um verdadeiro abalo.

O cérebro humano é preditivo: estamos o tempo todo
antecipando resultados, confiando em padrões e construindo narrativas sobre o
futuro. Quando a realidade rompe essas previsões, há um choque
cognitivo-emocional.

Esse choque ativa o sistema de dor social que é similar à dor
física.

A resposta em decorrência a esse estresse é um processo de
luto. Incrível? Sim, a decepção envolve micro lutos e por si mesma, pode mudar
uma pessoa.

Do ponto de vista psíquico, a decepção frequentemente toca em
camadas mais profundas do que o evento imediato — ela pode reativar
experiências antigas de abandono, rejeição ou traição.

Pode-se dizer que existe etapas psicológicas da decepção,
vamos buscar falar sobre elas de um jeito amigável e compreensível.

Embora não sejam lineares nem iguais para todos, a decepção
costuma atravessar algumas fases reconhecíveis que são etapas psicológicas de
decepção.

Primeiramente advém o choque, o momento de ruptura e o que
está em jogo é a esperança, o afeto, as construções de futuro e as
expectativas.

O choque vem com incredulidade, estado confusional, sensação
de “não pode ser”. Nesse tempo o psiquismo ainda está tentando sustentar a
expectativa anterior. O sujeito pode até se sentir, momentaneamente,
anestesiado.

Em segundo lugar sobrevém a intensa dor emocional através do
reconhecimento da realidade que se impõe sobre a ilusão até ali sustentada.

Esse momento vem acompanhado da tristeza, da mágoa, do
sentimento de rejeição, de menos valia e da sensação de que foi trouxa. Está
instalada a ferida narcísica.

Aqui o investimento afetivo perdido começa a ser sentido.
Quanto maior a expectativa ou idealização, mais intensa tende a ser a dor.

Surge então, um terceiro momento, o ego busca se proteger
utilizando defesas psíquicas tais como a raiva, a irritabilidade,
racionalização do tipo “na verdade, nem era tão importante!”, junta-se a
desvalorização do outro e sobretudo, a culpa dirigida a si mesmo. Se maltrata
quando deveria se acolher carinhosamente e reconhecer que nem todo mundo lhe
será fiel.

O que há de bom nessa fase é que o movimento psíquico está
buscando recuperar seu equilíbrio e sua autoestima.

Essa fase é importante porque mostra o movimento do psiquismo
tentando recuperar equilíbrio e autoestima.

Na sequência, desse sofrimento particularmente humano, de
modo saudável a pessoa inicia a elaboração do acontecido ao simbolizar a
experiência. Os sinais de elaboração aparecem quando consegue pensar sobre o
ocorrido diferenciando a fantasia da realidade, reconhecendo sua participação e
na tolerância das ambivalências, sobretudo que, como qualquer outra pessoa,
pode sim acontecer de ser traído e não mais amado.

Aqui a decepção deixa de ser apenas dor bruta e passa a ser
experiência psíquica assimilável que abre caminho para a etapa transformadora:
a reorganização psíquica.

Se percebe que antes estava vivendo uma consciência onírica
em que faltava o desempenho intelectual e ético, agora a consciência se
desprega da instintualidade agregando, à vontade, o desenvolvimento orientado
para agir e ao mesmo tempo considerando a naturalidade e espontaneidade
anterior ao colapso.

Os possíveis movimentos que demonstram essa etapa são a
revisão das expectativas contando com a consciência de seu próprio limite; o
amadurecimento do olhar sobre o outro; maior discriminação emocional e
redefinição de limites que possam preservar o ego.

Quando bem elaborada,
a decepção pode produzir crescimento psíquico — menos idealização, mais
realidade.

No entanto, esse processo pode f**ar emperrado quando a
idealização estiver muito rígida ou quando existem feridas narcísicas antigas
implicando em baixa tolerância à frustração e comumente, repetição de padrões
relacionais.

Consequentemente, a reorganização psíquica f**a postergada e
o sujeito assume posição de vítima ou mesmo de autopunição e o que é
socialmente perturbador, assume o desejo de vingança.

Nesses casos, a decepção não vira aprendizado — vira
ressentimento crônico, cinismo, agressividade, reatividade ou retraimento
afetivo.



Conforme um olhar mais profundo, do ponto de vista junguiano,
a decepção muitas vezes marca o colapso de uma projeção.

Aquilo que víamos no outro (ou na situação) continha
elementos da nossa própria psique não reconhecida.

A dor vem não só da perda do objeto, mas da perda da
imagem idealizada que sustentava o vínculo.

Por isso, toda decepção importante carrega uma pergunta
silenciosa:

O que em mim estava depositado ali?

Quando essa pergunta pode ser feita, a decepção deixa de ser
apenas ferida — e se torna material de transformação.



Sonia Lunardon Vaz – Analista Junguiana

O Deus Momo – rei da chacota e do sarcasmoDeus Momo era filho de Nix, a noite e era gêmeo de Ezis, a deusa da miséria. O...
16/02/2026

O Deus Momo – rei da chacota e do sarcasmo
Deus Momo era filho de Nix, a noite e era gêmeo de Ezis, a deusa da miséria.
O deus Momo veio da escuridão e da miséria. Na escuridão não há como enxergar, o que se vê pode não estar ali e o que não se vê pode estar. As sombras tomam conta e a ignorância prevalece.
O deus Momo veio da escuridão e da miséria. Na escuridão não há como enxergar, o que se vê pode não estar ali e o que não se vê pode estar. As sombras tomam conta e a ignorância e o medo prevalecem.
Nada mais acertado do que a ignorância ter como gêmea a miséria e nada mais obvio do que se defender de ambas as forças se tornando cínico, imbuído de trapaças, exalando sarcasmos e depreciações através da ironia.

Na mitologia grega ele é a personif**ação do sarcasmo, das chacotas irônicas e da sátira.
Examinemos o conceito de sátira:
A sátira é uma técnica artística ou literária que utiliza o humor, a ironia e o exagero para ridicularizar comportamentos humanos, instituições ou costumes sociais. Diferente da simples zombaria, ela geralmente carrega uma intenção corretiva ou crítica.

Modos da Sátira
• Modo Positivo (Funcionalidade Social):
o Incentivo ao Pensamento Crítico: Torna temas sérios ou complexos mais acessíveis, convidando o público a refletir sobre a realidade.
o Agente de Mudança: Ao expor hipocrisias e falhas, busca promover reformas morais, sociais ou políticas.
o Resistência: Historicamente, serve como ferramenta para desafiar regimes autoritários e figuras de poder através da denúncia.
o Se torna tóxica quando acolhe um regime político, ou uma ideologia porque não comunica a crítica, mas tão somente o ataque à oposição renunciando assim ao que lhe é mais contundente, o exercício do pensamento e abertura ao diálogo.

• Modo Negativo (Riscos e Consequências):
o Humilhação e Ataque Pessoal: Pode ultrapassar a crítica social e se tornar uma forma de constranger ou desacreditar indivíduos de maneira cruel.
o Impacto no Bem-Estar: O uso constante de ironia e cinismo na sátira pode estar associado a um aumento no sofrimento emocional, como ansiedade ou estresse, devido ao seu tom frequentemente pessimista.
o Polarização: Quando mal interpretada ou agressiva demais, pode gerar mais resistência do que reflexão, fechando canais de diálogo.
A eficácia da sátira depende de um equilíbrio sutil entre o realismo (para que o alvo seja reconhecido) e o absurdo (para evidenciar o ridículo).

Exemplos de obras satíricas na literatura:
"A Revolução dos Bichos" (George Orwell): Uma fábula satírica que usa animais de uma fazenda para ridicularizar a corrupção dos ideais revolucionários e a ascensão do totalitarismo.
"As Viagens de Gulliver" (Jonathan Swift): Embora pareça uma história de aventura, é uma sátira feroz à natureza humana e à política da época, questionando a "estupidez" das instituições.
"Uma Modesta Proposta" (Jonathan Swift): Um panfleto satírico onde o autor sugere, ironicamente, que os pobres vendam seus filhos como alimento para resolver a fome, expondo a crueldade das políticas sociais.

No cinema temos:
O Grande Ditador" (Charlie Chaplin): Uma sátira direta e corajosa a Adolf Hi**er e ao nazismo, usando o humor para desmascarar o ridículo do poder autoritário.
"Não Olhe Para Cima" (Adam McKay):Uma sátira contemporânea sobre a negação científ**a e o papel da mídia diante de crises globais, como a mudança climática.

Em termos de arte conceitual, temos o exemplo de Ole Ukena, artista alemão que, utilizando vários meios e ferramentas nas suas obras, não dispensa o valor da linguagem. Através de símbolos ou texto, ele joga ironicamente com os nossos padrões e espera que seja o espectador a concluir o trabalho, interpretando-o.
Os materiais que utiliza servem como metáfora que apesar de enigmático é extremamente desafiador, como por exemplo, o sinal da paz feito com 12 mil soldados de brinquedo ou um banco com pregos espetados que, em conjunto, escrevem a palavra ‘trust’ que signif**a “confiança” em alemão.

No período do Renascimento que surgiu na Europa entre os séculos XV e XVI e teve seu desenvolvimento ligado a uma série de mudanças sociais, políticas e econômicas que ocorreram no final da História Medieval, esse deus Momo se transformou na figura do divertimento “inofensivo” diminuindo seu poder e o instalando como apenas um ser fantasiado para gerar divertimento, uma espécie de bônus no palco do “pão e circo” doado pelos sarcásticos e cínicos poderosos da época.
Sua imagem era representada como um homem mascarado e trazia nas mãos um cetro com o símbolo da loucura.

Nas fábulas de Isopo, o deus aparece como um espirito que se encarregava de fazer críticas sumamente sarcásticas tanto aos mortais quanto aos deuses.

Uma das histórias que contam a seu respeito fala sobre a ocasião em que ele foi encarregado de julgar os trabalhos manuais de três deuses, Poseidon, Hefesto e Atena, sendo seus trabalhos respectivamente um touro, um humano e uma casa.

Em cada um dos trabalhos encontrou um defeito. Disse que o touro de Poseidon teria os cornos mal colocados; que ao humano de Hefesto faltava uma das fossas nasais e que a casa de Atena seria muito pesada e ainda, que lhe faltava umas lógicas rodas que permitissem ao proprietário trasladar-se para evitar vizinhos irritantes.

Essa foi a última situação tolerada pelos deuses, sendo então, expulso do Olimpo.

Um dado curioso é que na epopeia do Século XIII a.C., lhe foi atribuído inspirar a Guerra de Tróia pelo simples desejo de diminuir o número de população que acreditava ser demasiada.

Na América Latina, especialmente Brasil e Colômbia, o deus Momo é conhecido como o rei do Carnaval e talvez não se tenha o conhecimento de sua origem como um deus do Olimpo.

Em plena Idade Média, as festas em sua homenagem eram carnavalescas, a igreja católica não conseguindo conter as festividades do povo, fez sua inclusão no seu calendário cristão, permitindo o festejo antes da abstinência que tem lugar na Quaresma.

Sarcasmo é uma palavra com origem no grego sarkasmós que signif**a zombaria, gozação, deboche. Uma pessoa sarcástica costuma deixar clara a utilização de hostilidade em seu discurso, mesmo que de forma indireta desafiando o sentido literal das coisas. Intimamente ligado à ironia, o sarcasmo é de uma linguagem mais ácida que tem por objetivo zombar ou ofender o destinatário.

Sem ter a necessidade de expressar a agressividade de maneira a usar o físico, a pessoa sarcástica ou irônica se utiliza da palavra como meio de se defender e de criticar.

Curioso é perceber que muitas pessoas não entendem o sarcasmo supondo que a frase dita foi apenas no sentido literal. A essas pessoas, falta-lhes a capacidade de compreender as expressões emocionais do outro, bem como a linguagem corporal.

Ironia e sarcasmo fazem parte de aparições ocasionais em nosso cotidiano. É uma linguagem bastante comum a ponto de aqueles que não a entendem se destacarem na multidão como pessoas com dificuldade em comunicação.

O linguista John Haiman, da Macalester College, em Minnesota, nos Estados Unidos, chegou a afirmar que este é o próximo estágio de evolução para a linguagem e espero que a Inteligência Artificial não me ouça... (Acabo de me utilizar da ironia).

Quando pesquisadores monitoraram a atividade elétrica nos cérebros de pessoas expostas ao sarcasmo, eles descobriram que a atividade cerebral aumentou e que nosso cérebro precisa trabalhar mais para captar o conceito de sarcasmo e decidir o que um comentário realmente signif**a principalmente porque a ironia não é apenas usada em relação a uma pessoa, mas também para fazer referência a uma situação ou acontecimento engraçado ou curioso.

A incapacidade de compreender o sarcasmo e a ironia está sendo associada aos estudos sobre danos cerebrais no lobo pré-frontal e a certos comportamentos sociais ligados ao diagnóstico de autismo.
A pessoa pode até fazer a ironia, mas na hora de compreendê-la quando outra pessoa o faz, não a compreende julgando apenas como raivosa demonstrando assim, sua dificuldade em se colocar no lugar do outro.

Usar de sarcasmo requer uma certa dose de valentia, pois é uma maneira divertida de expressar suas impressões mais contundentes, por isso, verif**a-se seu uso mais frequentemente nas conversas online do que pessoalmente.
Parece que atrás de um computador as pessoas se asseguram de revanches e consequentemente, se tornam mais valentes.
A exceção f**a por conta do judiciário brasileiro que, indubitavelmente, se utiliza da ironia, do sarcasmo e, sobretudo, do sadismo contra o próprio povo. Devo acrescentar que vários estudos tem revelado que a relação sadomasoquista é a relação mais difícil de ser desfeita.
Os brasileiros, em sua maioria, têm se comportado como masoquistas?
O filósofo Nietzsche nos incitou a reagir quando disse que todos nós estamos indo para o matadouro, diz ele que vai, mas não vai quietinho, vai brigando, gritando e dando muito trabalho.

D I S T O P I AO QUE ISSO TEM A VER COM DEPRESSÃO E OUTRAS DOENÇAS MENTAIS? Nossa realidade distópica está na base de vá...
05/02/2026

D I S T O P I A

O QUE ISSO TEM A VER COM DEPRESSÃO E OUTRAS DOENÇAS MENTAIS?



Nossa realidade distópica está na base de várias neuroses atuais, como a depressão, a síndrome do pânico, ansiedade estrutural e Transtorno Desafiador Opositivo (TDO) que se caracteriza por um padrão persistente de comportamentos de raiva, hostilidade, teimosia e desobediência, principalmente direcionado a figuras de autoridade, como pais, professores e responsáveis.



Para explicar teremos de verif**ar quais são os fatores estruturantes da civilização atual, a saber:

A tecnociência que traz a digitalização da vida através da Inteligência Artificial, da biotecnologia e da automação. Com isso a técnica deixou de ser uma ferramenta e se tornou o ambiente da existência.
O capitalismo global financeiro que trouxe uma economia interligada produzindo o poder de grandes corporações, a financeirização onde dinheiro gera dinheiro, a cultura do consumo fazendo com que o valor social f**a frequentemente ligado a produtividade e poder de compra. Uma ilusão que desqualif**a a competências, carater, etica e a sensibilidade.
A globalização cultural trazendo a mistura de culturas, padronização de comportamentos, cultura digital global e redes sociais como espaço simbólico do coletivo. O que proporciona uma espécie de inconsciente cultural global em que as pessoas viram uma massa informe e sem personalidade.
A Individualização psicológica com muita ênfase no eu, na autonomia e na autorrealização; total fragilização de vínculos e uma ansiosa busca de sentido pessoal. Temos então, mais liberdade, mas também mais solidão e mais ansiedade existencial.
A Crise Ecológica com sérias mudanças ecológicas, um verdadeiro colapso da biodiversidade e salutarmente, o questionamento do modelo de progresso. Pela primeira vez a civilização percebe o limite material do planeta Terra, sua grandeza e o abuso das grandes corporações ou a ganancia pelo poder.


Esses fatores estruturais mostram-se visíveis no cotidiano como aceleração do tempo em que a urgência se faz constante criando uma cultura da resposta imediata, consequentemente dificuldade de espera e de maturação psíquica porque ocorre enfraquecimento do processo simbólico que precisa de tempo.

Na vida mediada por telas as relações são filtradas por tecnologia, a realidade e o virtual se misturam mesmo porque o indivíduo faz sua construção de identidade publica digital. Se não tiver a identidade publica digital, praticamente, não existe.

Criou-se a cultura da imagem e do desempenho com exposição permanente, auto apresentação como produto havendo comparação social contínua, gerando frustração e angustia.

Daí temos a crise de sentido com a derrocada de narrativas religiosas tradicionais, uma busca espiritual difusa, grande crescimento de terapias alternativas, espiritualidades hibridas e autoconhecimento feito tomar uma pílula. Tudo tem que ser rápido, sem momento de reflexão e nem de crítica substancial.

Outro fator visível na sociedade distópica é a fragmentação de identidade que é atravessada por pertencimentos fluídicos, múltiplas identidades e questionamento de papéis tradicionais com a tendencia de dissolução de todos os vínculos familiares. A fraternidade, a solidariedade, a ternura, o vínculo afetivo sólido e continuo são rapidamente descartados e o que assume seu lugar são vínculos frágeis, incertos ou mesmo ocorre substituição por ideologias que prometem pertencimento, mas que, na realidade, apenas é utilizado pelo poder.

Como se não bastasse ainda temos a questão da velhice e a violência em vários degrades. Mas, esses assuntos serão tratados em outro momento.

Por ora vou me ater em trabalhar um olhar mais junguiano procurando fazer uma leitura simbólica sobre essa sociedade.

Podemos ver a civilização atual dominada por alguns arquétipos, lembrando que o processo de individuação requer seu conhecimento e posterior distancia para, enfim, não ser tomado inconscientemente, pois o conhecimento consciente desses arquétipos libera energia psíquica para que o ego saiba lidar com eles e sua sombra.

Esses são alguns arquétipos bem presentes e dominantes:

O arquétipo de Prometeu, aquele que roubou o fogo do Olimpo presenteando o humano. O deus do Olimpo, Zeus, fez com que o amarrassem em uma rocha e que uma águia comesse seu fígado imortal diariamente e para sempre. Seu nome signif**a previsão ou premeditação.

Em nosso mundo, ele passa a ser o trickster tecnológico de tecnologia sem limite ético produzindo sombra social e cultural, quanto mais inconsciente este trickster social mais absorção da pessoa ou das pessoas possui e a depender do caráter daqueles que alimentam a tecnologia da inteligência artificial. Previsão e premeditação f**am unilaterais, pertencem apenas ao trickster tecnológico.

Em seguida pode-se verif**ar com facilidade o domínio do Puer Aeternus Coletivo (a Eterna Criança), d´onde as pessoas estão freneticamente em busca de novidade, corpo perfeito, distrações, juventude, diversões e com muita dificuldade em sustentar compromissos, assumir responsabilidades, regular emoções e lidar com frustrações.

Na sequência, não se pode deixar de ver a sombra de Votan, o deus nórdico, arquétipo do poder e da ganancia, triturando pessoas que não estão de acordo com suas leis feitas por ele mesmo com um único objetivo: o anel do poder. Por onde tem influência, ele sacrif**a a beleza, o amor e intensidade de vida.

Por último é visível e assustador, a Sombra Coletiva crescente e dilatada em polarizações, violência simbólica, extremismos e radicalizações.

O olhar junguiano contempla a compreensão dos contrários, de modo que também se nota um movimento compensatório frente as tais situações como facilmente se detectam. À par dessa distopia ocorre mais busca de espiritualidade, maior interesse por psicologia profunda, uma variedade de tentativas de retorno ao corpo, à natureza e aos rituais diversos como maneira de compensar a unilateralidade racional com vivencias simbólicas ou tratamento junto à simbologia.

Em síntese, a civilização atual é marcada por alta potência tecnológica, conectividade global, individualização psíquica, crise de sentido, pressão ecológica, cultura da velocidade e da imagem, incerteza, fragilidade, impotência e invisibilidade como sujeito.



Em aprofundando o assunto, pode-se citar as características diatópicas sociais:

Permanente vigilância através de monitoramento digital, os dados pessoais são usados como mercadoria alimentando algoritmos que preveem o comportamento e tornam o sujeito em objeto de venda. O que se traduz em perda gradual da privacidade e da autonomia real.

Desigualdade extrema, está acontecendo a concentração inédita de riqueza; em elite tecnológica-financeira global como também grandes massas precarizadas pela fome, falta de saneamento básico, de saúde, de educação e de segurança.

A condição que se estabelece é a de castas econômicas rígidas e sem esperança para quem faz parte da base piramidal.

Substituição humana sistêmica é visível através da automação de trabalho intelectual e manual; da redução do valor simbólico do humano produtivo e da crise de identidade ligada ao trabalho. O risco distópico é a sensação coletiva de inutilidade existencial e o sentimento de menos valia.

Colapso ecológico progressivo que, indubitavelmente, se apresenta em eventos climáticos extremos; migrações climáticas e escassez de recursos naturais que causam riscos de guerras por água, por comida e por território.



E quais seriam, então, as Características distópicas psicológicas?

Estamos vivenciando dependência psíquica de tecnologia, claramente se percebe a dificuldade de existir fora do digital. A mudança de atenção que antes poderia ser focada, hoje é fragmentada e a dopamina sendo imediata não fornece tempo suficiente para a elaboração simbólica de qualquer situação e conteúdo.

A identidade agora é performática, para existir tem de ser visto donde que a vida é como uma vitrine e o Self cada vez mais empurrado para o externo, o que prejudica reflexão, vida simbólica, atuação crítica e performance individuada e não individualizada. O ego não se atrela ao inconsciente daí não possui o contato com o self profundo.

Não é à toa que vivemos em ansiedade estrutural pela sensação permanente de ameaça, de sobrecarga informacional e a percepção de futuro incerto ou instável.



Para finalizar a situação distópica aqui reconhecida temos, infelizmente, a concretização da solidão coletiva pois quanto mais conexão digital menos vínculo profundo ou mesmo raso.

Aqui as relações são substituíveis sem que aja a compreensão de que pessoas são completamente insubstituíveis dada sua complexidade e genuinidade. A fragilidade comunitária está posta e todos vivemos em perigo, social, físico, emocional e psicológico.

Para a Psicologia Analítica bem como citou Jung, quando uma cultura f**a unilateral em algum tipo de excesso, no caso, tecnologia, poder e ego, o inconsciente responde com mitos sombrios, imagens apocalípticas, narrativas distópicas e inúmeras fantasias de colapsos.

Em suma, as distopias são sonhos coletivos de alerta, que não estão sendo contemplados pelos humanos no poder. A falência, a miséria, a doença e a morte estão sendo produzidas por um sistema que contempla apenas o jogo do poder e da ganância. E sim, o povo é vítima e impotente principalmente devido a ignorância, a falta de conhecimento. O desejo de ser paternado ou maternado, leva a população ao auto engano do pertencimento e enquanto isso, os donos do poder criam a maior distância entre a riqueza e a pobreza; entre a ignorância e a sabedoria; entre a solução e a dissolução da existência e até mesmo do planeta.

Minha utopia: Hoje os pilares do mundo civilizado são a política e a religião e vem sendo assim por séculos e por séculos não tem resultado em prosperidade coletiva. Em minha utopia esses pilares seriam substituídos pela tecnologia e pela ciência. Hoje a corrupção atravessa a ambas. Em minha utopia tecnologia e ciência seriam integras e éticas. Se fosse assim, não haveria no mundo uma única pessoa na miséria, porque essa é produzida e sustentada pela politica e pela religião. Tecnologia e ciência limpas da corrupção resultariam em mais saúde, mais educação, mais riqueza distribuída a todos, mais segurança e sobretudo, consciência planetária em que fauna e flora seriam respeitadas.

O humano está no topo da cadeia alimentar e também no topo do maior predador da história do planeta. Em minha utopia, o humano conheceria emocionalmente esse seu lado sombrio e se libertaria de seu domínio, sendo capaz de bem administrar sua sombra sem perda para com a comunidade e para com o planeta.

AGRESSIVIDADE E VIOLENCIA – UMA HERANÇA INCOMODAPor que tendemos a negar e a resistir aoreconhecimento do comportamento ...
28/01/2026

AGRESSIVIDADE E VIOLENCIA – UMA HERANÇA INCOMODA

Por que tendemos a negar e a resistir ao
reconhecimento do comportamento violento ou mesmo agressivo?

Uma influente psicanalista e
psiquiatra americana, Clara M.Tompson, escreveu que a agressão não é
necessariamente destrutiva e que ela se origina de um instinto inato para
sobreviver e dominar a vida, o que parece ser característica de toda matéria
viva.

Em seu trabalho, ela chegou à
conclusão de que a raiva, a ira e o ódio só passam a estar ligados à
agressividade instintual quando essa força vital é destruída em seu
desenvolvimento.



O londrino escritor e psiquiatra
Anthony Storr escreve que não resta dúvida de que o humano é uma criatura
agressiva por natureza.

Afora o humano dificilmente se
encontra outra espécie vertebrada que habitualmente destrói membros de sua
própria espécie demonstrando prazer no exercício de crueldade contra os seus.

Ele afirma que somos a espécie mais
cruel e implacável que jamais pisou no planeta Terra.

Diversos animais exibem comportamentos
extremos contra a própria espécie, mas que evolutivamente servem para garantir
a sobrevivência, reprodução e dominância territorial, não há neles o
comportamento cruel e sá**co que se presencia no humano.

Em termos de natureza o humano herdou
circuitos neurais e mecanismos biológicos que ativam a agressão defensiva. Ela
é tida como uma característica constitutiva do humano ligada à espontaneidade e
motilidade podendo ser canalizada para atividades construtivas. Diferentemente,
a violência é a
ação destrutiva que tem por finalidade ferir ou destruir.

O caráter específico da violência é o
desejo deliberado de causar mal, de humilhar, de imputar o sofrimento no outro
e se comprazer com tal objetivo. Não existe violência instintiva, porque existe
conscientemente um projeto de executar a agressividade de uma maneira que venha
a prejudicar e destruir.



No entanto, quando a agressividade se
manifesta de forma intensa e persistente no ambiente, torna-se um obstáculo
para o desenvolvimento emocional, afetivo e social das crianças com reflexos
devastadores na vida adulta.

Por assim dizer, a agressividade
inata pode se expandir para atos violentos tanto devido a fatores genéticos
quanto a fatores ambientais.

Estudos apontam que a mera existência
do instinto de agressividade não pode ser a responsável pela violência na
história e na cultura. Há dois fortes contigentes que promovem a violência, a
saber, a política e a religião.

Devido principalmente à cultura
religiosa, a raiva e o comportamento agressivo passaram a ser considerados
pertencentes ao mal, de modo que foi renegado ao inconsciente sendo reprimido e
sublimado em comportamentos evidentemente racionalizados e mesmo neurotizados.

Para o psicanalista Sigmund Freud, a
agressividade é instintiva e relacionada à sexualidade, já para seu contemporâneo,
o psicólogo austríaco Alfred Adler ela é instintiva e relacionada ao poder.

Há inúmeras evidencias e fatos
políticos que vem comprovar a tese de Adler que, inclusive, se repetem desde o
início da humanidade sem que essa tenha aprendido ou desenvolvido a devida
maturidade para não mais repetir a fórmula destrutiva e desumana cuja intenção
é tão somente de domínio e ganancia que, obviamente, derrama o sangue dos
animais, da flora e da fauna, e dos humanos.

Para Jung, a agressividade é um
instinto nato e primordial. Quando lá nos primórdios da humanidade o humano se
encontrava em extremo desamparo diante de um cenário inóspito e buscando se
defender para sua proteção e sobrevivência, desenvolveu a agressividade como
defesa.

Assim, no momento atual, qualquer
situação de desamparo, sinais de diferenças, de insatisfação, de humilhação ou de
não reconhecimento pode reconduzir ao estado de defesa primordial em que a
violência era a resposta para as ameaças.

Esse é um estado indiferenciado da
psique em que o conteúdo primordial, arquetípico, se mistura com o conteúdo
psíquico pessoal e ao invés de se atualizar para uma resposta assertiva,
trabalhada junto ao bom senso e sensibilidade, extrapola para uma ação primitiva
dando lugar a violência dificultando as práticas de cooperação e solidariedade sociais.

Pode se afirmar por isso, que na violência
o laço social não acontece e nem está presente.

A outra forma de violência (ato de
causar sofrimento), em que o vínculo se encontra distorcido devido ao poder e
reduzido a uma ordem de poderio, é o comportamento passivo-agressivo que em si
mesmo não presume um encadeamento discursivo porque o agressor não admite sua
agressão e muito menos sua intenção de ferir ou destruir o outro. Se utilizando
de argumentos sutis sem confronto direto, inviabilizando a retórica.

Na minha
prática como analista junguiana tenho presenciado frequentemente esse tipo de
comportamento justamente junto aos psicólogos(as) que por ter por objeto de estudo
o comportamento e a saúde mental deveriam fazer uma boa psicoterapia para
verif**ar o seu complexo de inferioridade que, indubitavelmente, os levam ao comportamento
passivo-agressivo e consequentemente a falta de vínculos genuínos.

O comportamento passivo-agressivo constitui-se
de um traço de personalidade influenciado por baixa autoestima, ansiedade
social ou de depressão e ocorre com frequência nos relacionamentos de todas as
áreas e ambientes sociais.

A comunicação assertiva é a
recomendada para tais casos até mesmo como forma de escapar dessas engrenagens
sutis do comportamento passivo-agressivo.

Resumidamente, para Jung, a
agressividade é uma energia psíquica instintual e arquetípica em que o conteúdo
primordial deve ser reconhecido pela consciência de modo a se desconectar dos
complexos nela imbricada seja pela genética seja pelo ambiente.

Sabemos que a pouca ou nenhuma
nutrição afetiva recebida na infância ou no desenvolvimento da personalidade causa
um sentimento de escassez, um vazio interior que pode ser erroneamente
preenchido pela dependência de pessoas ou de religião ou de ideologias.

A pessoa com deficiência dessa
nutrição pode acreditar que essa situação é o normal e que ao receber um pingo
de nutrição já se sente grata pela vida toda gerando um vínculo unilateral com aquele
ou aquilo que lhe deu uma gotinha de alimento afetivo, tornando-se vulnerável a
manipulação e a exploração.

O alimento que nutre a vida não cria
dívida.

O fortalecimento da personalidade,
através da psicologia profunda de Jung, nos ensinou a se alimentar da vida sem
causar culpas e a se apropriar da abundância que o leite da vida oferece
indiscriminadamente.

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