05/03/2026
Pensar demais é um modo lento
de incendiar o invisível.
A mente, quando perde o altar do silêncio,
vira oficina de fantasmas.
Pega um gesto pequeno,
veste de presságio.
Toma uma ausência breve,
coroa de abandono.
Escuta um eco,
e já anuncia ruínas.
Assim nascem dores sem corpo,
tempestades sem céu,
feridas abertas
por mãos que nunca tocaram a pele,
mas tocaram o medo.
Existe um fogo que não vem do mundo.
Vem de dentro.
Vem da imaginação sem repouso,
da alma que desaprendeu a confiar,
do coração que se ajoelha
diante de cenários que nunca existiram.
Pensar demais
é dar trono ao que ainda nem nasceu.
É sofrer por sementes
que jamais romperão a terra.
É beber, gota por gota,
o veneno de um amanhã inventado.
E o mais trágico
é que quem vive assim
quase sempre parece lúcido por fora.
Fala bonito,
analisa fundo,
nomeia abismos com elegância,
mas por dentro
está apenas cansado de sustentar
o peso de mundos imaginários.
A mente sem disciplina
é um templo profanado.
Acende velas para sombras,
faz orações ao medo,
confunde intuição com pânico,
sensibilidade com desordem,
profundidade com excesso.
Mas a verdade espiritual é outra.
Nem toda inquietação é aviso.
Nem todo aperto é revelação.
Nem toda angústia contém mistério.
Às vezes, o que parece sinal
é só a alma pedindo descanso.
Há sabedoria em calar o tumulto.
Há poder em não seguir
cada pensamento até o fim.
Há cura em fechar a porta
para aquilo que só quer entrar
para devastar.
Porque pensar menos,
em certos dias,
não é pobreza de espírito.
É oração madura.
É devolver a mente a Deus
antes que ela transforme poeira em montanha,
suspeita em destino,
sombra em sentença.
Quem aprende isso
não f**a raso.
F**a livre.
E a liberdade,
quando finalmente entra,
apaga uma por uma
as chamas inúteis
que a própria mente acendeu.