10/05/2026
ENTRELINHAS
folhetim psicológico
Capítulo 5
O cansaço de sustentar quem esperam
Ele já sabia como funcionar em cada ambiente.
Com algumas pessoas, ficava mais leve.
Com outras, mais atento.
Mudava o tom.
As palavras.
Às vezes até o jeito de olhar.
Aprendeu cedo a perceber o que cada lugar esperava dele.
E entregava.
Por adaptação.
Por cuidado.
Por sobrevivência emocional.
Era automático.
Tão automático que, durante muito tempo, aquilo pareceu maturidade.
Até o desgaste aparecer.
Um desgaste silencioso.
O esforço constante de observar, ajustar, antecipar.
Como se relaxar completamente perto de alguém
trouxesse algum tipo de risco invisível.
Então seguia.
Funcionando bem.
Sendo querido.
Correspondendo.
Mas uma pergunta começou a surgir
nos momentos em que ficava sozinho:
“Em qual versão de mim existe descanso?”
Ela vinha rápido.
Quase como um pensamento atravessando a sala.
E ia embora antes de ganhar forma completa.
Mesmo assim, deixava alguma coisa no ar.
Porque certas perguntas chegam para interromper padrões.
E aquela pergunta começou a fazer isso.
Pela primeira vez, percebeu o quanto permanecia atento o tempo inteiro.
O quanto se adaptava antes mesmo de qualquer pedido.
O quanto tentava manter tudo em equilíbrio.
Só que equilíbrio permanente também pesa.
Principalmente quando alguém passa tanto tempo sustentando o que esperam…
que perde o contato com aquilo que sentiria
caso pudesse apenas existir.
Talvez esse seja um dos cansaços mais difíceis de explicar:
existem pessoas exaustas da obrigação silenciosa
de sustentar versões de si
que aprenderam a jamais incomodar.
No próximo capítulo:
o instante em que alguém percebe que passou mais tempo preservando vínculos… do que permanecendo inteiro dentro deles.
Luciano Amado
Psicólogo
CRP 08/32306