02/03/2026
Essa parece uma pergunta simples, mas na clínica ela muda tudo. Ouvir é algo que o nosso corpo faz o tempo todo. A gente ouve o barulho da rua, ouve a respiração do paciente, ouve as palavras sendo ditas. Mas escutar é outra coisa. Escutar implica deixar que aquilo que está sendo dito realmente chegue até você, sem a pressa de organizar, interpretar ou responder.
Muitas vezes, enquanto o paciente fala, o terapeuta já está pensando na próxima intervenção, na teoria que explica aquele funcionamento, na melhor forma de conduzir. Isso é humano. Mas quando isso vira regra, a escuta f**a comprometida. A gente passa a ouvir apenas o que confirma o que já sabe e deixa escapar o que é novo, o que é vivo, o que está acontecendo ali, naquele encontro específico.
Escutar exige um tipo de disponibilidade que nem sempre é confortável. Exige tolerar não saber, sustentar o silêncio, perceber o que se move dentro de você sem transformar isso imediatamente em fala. A qualidade da escuta não depende só de técnica, depende da sua presença.
E talvez a pergunta não seja apenas sobre o que você faz com o que o outro diz, mas sobre o quanto você consegue estar realmente ali quando alguém confia a você a própria dor.
Valéria Elias Araújo | CRP15 - 5893
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