26/11/2021
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Quando a placenta é parida ou retirada do útero, ela deixa uma espécie de "ferida" lá dentro mais ou menos do seu tamanho (um pouco maior do que um prato de sobremesa, em média). Quando um parto normal ocorre, se não houver hemorragia, perdemos até meio litro de sangue. Já na cesárea, até 1 litro. Se foi parto, provavelmente músculos, ligamentos, ossos, foram bastante movimentados, modificados em relação ao seu estado usual. Se foi cesárea, houve corte em várias camadas, que precisarão de tempo para cicatrizar.
Agora, pense aqui comigo: imagine que alguém tivesse uma ferida maior do que um prato de sobremesa do lado de fora do corpo. E tivesse perdido meio a um litro de sangue. E tivesse várias estruturas do corpo modificadas, mexidas, cortadas. Tudo isso ao mesmo tempo. Alguém esperaria que essa pessoa levantasse e voltasse imediatamente a viver sua vida normal? Atividades, esforço, tarefas, tudo igual?
Então por que somos culturalmente, na atualidade, tão exigente com as pessoas e seus corpos pós-parto? Inclusive auto-exigentes às vezes. Vamos deixar essa imagem da pessoa com a ferida do tamanho de um prato e que perdeu esse sangue todo assentar nos nossos pensamentos. E, com isso, vamos refletir sobre os padrões e demandas do que alguém supostamente deveria estar fazendo pós-parto.
Obviamente que no nosso mundo injusto, repouso e apoio são privilégios. Então nem todo mundo poderá reduzir as demandas sobre seu corpo pós-parto porque as condições objetivas não permitem. Mas será que podemos ser mais gentis com nossos corpos, com nosso tempo, quando passando por todas essas mudanças? Ou será que essa imagem pode ajudar o coletivo a entender que suporte pós-parto deveria ser considerado direito básico de toda pessoa? Ou as pessoas que teriam a possibilidade de reduzir o ritmo, mas estão sob pressão externa ou interna para "voltar ao normal", podem de repente respirar fundo e dar mais tempo para sua recuperação?
O processo todo de gestar e parir pode ser muito bonito, muito gratificante, muito especial, para quem o deseja, mas nem por isso é menos intenso. Restaurar e reparar exigem tempo e energia. Que toda pessoa possa ter o que precisa!