17/04/2026
17/04/2026 - 33 – Entre o que nos atravessa e o que podemos elaborar
A vida psíquica não se organiza apenas pelos grandes acontecimentos. Muitas vezes, é no que parece pequeno, repetido e quase imperceptível que algo em nós se desarruma.
Somos atravessados, todos os dias, por experiências, exigências, perdas, impasses e afetos que nem sempre conseguimos nomear de imediato. E é justamente aí que a análise encontra seu lugar: no cuidado com aquilo que insiste, com aquilo que retorna, com aquilo que nos toca e nos desestabiliza sem que saibamos, de pronto, o que fazer com isso.
Freud nos ensina que não há sofrimento sem história. Há sempre algo do sujeito implicado naquilo que o afeta, mesmo quando isso se apresenta como sintoma, angústia ou repetição. E não é fácil perceber isso! Lacan, por sua vez, nos lembra que há um saber inconsciente em jogo, e que nem sempre se trata de eliminar o mal-estar, mas de poder escutá-lo de outro modo. Pra isso, é preciso disposição para olhar para si.
A análise não promete uma vida sem atravessamentos. Ela nos ajuda, antes, a sustentar o encontro com aquilo que nos desconcerta, para que possamos produzir uma resposta menos automática e mais singular diante do que insiste em nós.
Talvez seja isso: aprender a olhar para o pior sem se deixar capturar por ele.