10/11/2024
O dia de finados já passou, mas gostaria de deixar registrado uma breve mistura de letras e palavras que tive após ler os belos textos de Carpinejar, Ana Claudia Arantes e assistir Harry Potter.
TESTRÁLIO
A morte, quando passa perto, quando toca um rosto querido, deixa uma marca invisível em nós, uma cicatriz sem ferida. De repente, olhamos para a vida e ela parece ter sido reorganizada, revirada, como se cada detalhe tivesse algo escondido para dizer.
Enxergar a isto, verdadeiramente, é um dom que poucos possuem. O Testralio me ensinou isso, uma criatura que aparece apenas para aqueles que passaram pelo limiar entre o “aqui” e o “não mais”. Ele é uma presença sutil, quase um sussurro de asas que se abre no invisível, um lembrete de que a vida é um ponto de passagem e que o agora é feito de uma beleza fugaz, inquieta, irremediavelmente temporária.
Após perder quem se ama, algo dentro de nós se transforma para sempre. Aquele que vive com a morte ao seu lado passa a sentir a realidade em sua textura crua, sem a proteção das ilusões de eternidade. Cada instante parece carregado de significado, como se o mundo fosse uma página que se escreve e apaga ao mesmo tempo. O que antes era comum – um olhar, um toque, o sabor de um café pela manhã – agora revela a profundidade de sua simplicidade.
A morte nos empurra para um entendimento maior. Não há mais tempo para o desespero das pequenas vaidades, das preocupações sem importância. A vida se expande e, ao mesmo tempo, parece tão delicada quanto uma chama ao vento. Quem viu o Testralio sabe que cada dia é um convite a ver o que estava oculto, a ouvir o que estava silenciado. Saber que a morte caminha conosco é aprender a viver em plena presença, como quem aprendeu, finalmente, a ouvir o sussurro da eternidade no voo das horas.
Enxergar o Testrálio, acima de tudo, exige coragem.