09/04/2026
"Ultimamente eu ando dando uns palpites tão errados", disse eu, rindo, para as minhas colegas dos grupos de leitura, me referindo às articulações teóricas que me aventuro a fazer ao longo dos estudos. É um alívio poder rir disso, a Mari de um tempo atrás provavelmente estaria se sentindo mal e inadequada.
Mas não. Eu, a Mari de hoje, me sinto viva.
Queria poder dar um palpite mais certeiro diante daquilo que estavamos discutindo. Mas tenho olhado com respeito e ternura a beleza do movimento que acontece, a partir do momento que as coisas não saem muito bem como eu pensei.
Me afeto pelo que leio, viajo, crio conexões, as coloco à prova diante dos meus pares. Discutimos sobre e às vezes concordamos, às vezes discordamos. Se discordam penso o porquê, tento entender. Saio do grupo cheia de interesse e curiosidade, vou buscar suporte, vou pesquisar, vou ler, pensar e aprender. Posteriormente, dou notícias às colegas sobre a minha breve pesquisa e, assim, constato que aprendi algo novo.
Foi assim, a partir desse conhecimento não-todo - que ora falha, ora falta - que partimos para a leitura do caso Schreber e a leitura do livro preciosíssimo da Neusa Santos Souza, enquanto nos aventuravamos pelo Seminário 3; foi a partir desse Seminário também, e de um palpite equivocado meu, que me vi interessada em saber mais sobre o recalque originário; foi lendo o livro do Darian Leader sobre o Gozo, que me veio a curiosidade de entender como funciona o estádio do espelho na questão do autismo; foi escutando uma fala da Michele Roman Faria que me despontou a vontade de ler mais sobre a estrutura fóbica e a placa giratória.
Essa falta que me aparece no campo do conhecimento já foi motivo para muita angústia. Ao mesmo tempo que me gerava o sentimento de incapacidade, tornava os meus pares algozes vigilantes dos meus erros.
Fato é: eu não vou me livrar permanentemente disso. Mas encontrar outros lugares pra ela - no riso, no movimento, no interesse, na curiosidade, nos laços de parceria - talvez me dê saídas menos sofridas.
Hoje, a minha angústia é não ter todo o tempo do mundo pra estudar tudo o que quero (achou o que? Que os tempos de angústia tinham acabado? Rsrs).