30/01/2026
Na psicanálise, a compulsão é compreendida como uma repetição que escapa ao controle consciente do sujeito e que insiste mesmo quando produz sofrimento. Diferentemente do desejo, que se articula à falta e admite o limite, a compulsão busca tamponar essa falta por meio de atos, vínculos ou objetos que prometem alívio imediato, mas nunca definitivo. É nesse ponto que se evidencia sua dimensão paradoxal: quanto mais se tenta preencher o vazio, mais ele se reafirma.
Entre as diversas formas de compulsão, aquela de caráter afetivo tende a ser a mais difícil de ser reconhecida. Isso ocorre porque ela se apresenta travestida de cuidado, entrega e amor. O sujeito acredita amar em excesso, quando, na realidade, encontra-se aprisionado à necessidade de ser amado, visto ou confirmado pelo outro. A repetição de relações marcadas pela dependência emocional, pelo medo do abandono e pela angústia diante da separação revela não um excesso de afeto, mas a tentativa insistente de reparar uma falta primordial.
No cotidiano, essa dinâmica se manifesta na dificuldade de sustentar a ausência do outro, na urgência por respostas, na necessidade constante de agradar e na vivência do vínculo como garantia de existência psíquica. O outro deixa de ser um parceiro simbólico e passa a ocupar o lugar de suporte do próprio eu. Assim, o laço afetivo perde sua dimensão de encontro e transforma-se em recurso defensivo contra a angústia.