11/03/2026
Se o homem nasceu para ser provedor… por que tantas famílias são sustentadas por mulheres sozinhas?
Não é uma pergunta agressiva.
É uma pergunta analítica. Eu explico.
Porque quando a gente olha para a realidade...
não para o discurso bonito... o que aparece é outra coisa.
Aparecem mães solo.
Aparecem mulheres que trabalham, criam, educam, pagam contas, seguram a casa emocionalmente e financeiramente enquanto tentam explicar para um filho por que o pai “não pôde vir”, “está ocupado”, “aparecerá outro dia”.
A psicanálise tem um nome para isso.
Chama-se abandono simbólico e abandono concreto.
O pai não desaparece apenas do endereço.
Ele desaparece da função.
E função paterna não é só pagar pensão.
É presença psíquica.
É referência.
É limite.
É responsabilidade afetiva.
Mas o que vemos repetidamente na sociedade é outro roteiro.
Homens que constroem uma família.
Depois outra.
Depois outra.
Não porque a vida é complexa... a vida sempre foi complexa.
Mas porque existe uma cultura que naturalizou a rotatividade afetiva masculina.
Troca-se de mulher como se troca de capítulo.
Troca-se de família como se troca de fase da vida.
Enquanto isso, a mulher permanece no mesmo lugar:
segurando os destroços emocionais e financeiros que ficaram.
E aqui entra uma contradição curiosa.
Muitos discursos tradicionais dizem que o homem foi feito para prover.
Mas quando olhamos os dados da vida real, quem está provendo é a mulher.
Mulheres trabalhando dobrado.
Mulheres envelhecendo mais rápido.
Mulheres que chegam aos quarenta, cinquenta anos carregando nas costas não só a própria história, mas também a responsabilidade que alguém abandonou no caminho.
E então surge outra violência o etarismo.
A mesma sociedade que normaliza homens começando novas famílias aos cinquenta ou sessenta anos passa a tratar a mulher madura como se ela estivesse “fora do prazo”.
Veja a ironia da misoginia.
O homem que teve três famílias é visto como experiente.
A mulher que criou três filhos sozinha é vista como “complicada”.
É quase um delírio social.
A psicanálise explicaria isso como uma distorção coletiva de responsabilidade.
Quando uma cultura protege demais um lado, ela desloca a culpa para o outro.
Então a mulher vira “difícil”.
“Amargurada”.
“Exigente”.
Quando, na verdade, muitas vezes ela só está cansada.
Cansada de ser forte o tempo todo.
Cansada de segurar estruturas que não foram feitas para uma pessoa só.
E ainda assim, existe algo profundamente digno nessas mulheres.
Porque apesar da traição,
apesar do abandono,
apesar das ausências que atravessam gerações,
elas continuam criando gente.
Continuam sustentando casas.
Continuam tentando ensinar aos filhos algo que muitos homens nunca aprenderam:
responsabilidade emocional.
Talvez o verdadeiro debate não seja sobre quem nasceu para prover.
Talvez a pergunta mais honesta seja outra.
Quem, de fato, está assumindo as consequências das próprias escolhas?
Porque maturidade não é fazer famílias.
Maturidade é permanecer responsável por elas.
Vida de Mulher