17/02/2026
Ela atravessou devagar.
Bem devagar mesmo.
Empurrando um carrinho de bebê.
Daqueles antigos. Sabe? Daqueles que a gente via há trinta anos. Roda meio torta. Tecido desbotado pelo sol. Amassado de um lado.
Eu olhei.
Todo mundo olhou.
Porque não tinha choro de criança.
Não tinha criança nenhuma.
Dentro do carrinho, enrolado numa manta fininha, tava um cachorro.
Velho. Grande demais pra caber ali direito.
As patas saíam um pouco pra fora. A cabeça f**ava de lado, olhando pro caminho como quem já conhece cada pedra, cada buraco.
Ela empurrava com um cuidado...
Sabe aquele cuidado exagerado?
Desviava de buraco. Parava antes de subir degrau. Pedia licença pra passar.
Ajustava a manta quando o vento soprava.
Alguém comentou baixinho: "Coitada. Deve estar meio... sabe?"
Outro riu. Daquele riso de quem acha que tá vendo loucura.
Eu fiquei quieto.
Observando.
Ela parou num ponto de ônibus. Sentou no banco. O carrinho do lado.
O cachorro mexeu a cabeça. Olhou pra ela. Ela fez carinho.
Como quem faz carinho em filho.
E foi nessa hora que eu percebi.
Não tinha nada de errado ali.
Tinha tudo certo.
Eu me aproximei. Não sei por quê. Talvez curiosidade. Talvez vontade de entender.
"Oi", eu disse.
Ela olhou. Sorriu. Daquele jeito cansado, mas gentil.
"Oi."
"Posso perguntar... o cachorro tá bem?"
Ela respirou fundo.
"Tá. Tá velho. Doente. Não anda mais muito não."
Fez uma pausa.
"Mas ele gosta de sair. Gosta de ver a rua. Gosta de sentir o vento."
Eu olhei pro cachorro. Ele olhou pra mim.
Aquele olhar... sabe?
De quem já viveu muito. De quem já viu tudo. De quem não tem medo de nada mais.
Mas que ainda quer estar ali.
Vivo.
"E o carrinho?", perguntei.
Ela deu um sorriso pequeno. Meio sem graça.
"Era do meu filho. Tá guardado lá em casa há anos. Ele cresceu, casou, foi embora."
Olhou pro cachorro.
"Quando o Duque adoeceu, eu pensei... ele não pode f**ar sozinho em casa o dia todo. Ele f**a triste. Chora. Geme."
Ajeitou a manta de novo.
"Aí eu lembrei do carrinho."
Eu fiquei calado.
Porque não tinha nada pra falar, né?
O que eu ia dizer? "Que loucura"? "Que amor"?
Era as duas coisas ao mesmo tempo.
"As pessoas olham", ela disse, baixinho. "Acham estranho. Alguns riem. Outros f**am com pena."
Deu de ombros.
"Mas eu não ligo não."
Olhou pro cachorro de novo.
"Ele me acompanhou por quinze anos. Quando meu marido morreu, foi ele quem ficou do meu lado. Quando meu filho foi embora, foi ele quem dormiu comigo."
A voz tremeu um pouquinho.
"Agora que ele tá velho, doente, eu vou fazer o quê? Deixar ele sozinho? Abandonar?"
Balançou a cabeça.
"Não. Enquanto ele tiver um sopro de vida, ele vai sair comigo. Vai sentir o sol. Vai ver gente. Vai viver."
Eu engoli seco.
Porque ela tinha razão.
Ela tinha toda razão do mundo.
O ônibus chegou. Ela levantou. Pegou o carrinho.
"Tchau", disse.
"Tchau", respondi.
Vi ela entrar no ônibus. O motorista olhou pro carrinho. Ia falar alguma coisa.
Mas ela já tinha pago a passagem. Já tava entrando.
E o motorista deixou.
Porque tem coisa que a gente não discute, né?
Tem coisa que a gente só... respeita.
Fiquei ali parado.
Pensando.
Quantas vezes a gente julga?
Quantas vezes a gente olha e ri?
Quantas vezes a gente acha que sabe o que é certo, o que é errado, o que é normal, o que é loucura?
E a gente não sabe nada.
Aquela mulher não tava louca.
Aquela mulher tava amando.
Do jeito que dava.
Com o que tinha.
E isso não é loucura.
Isso é humanidade.
💙 Amor não pede licença pra ser estranho. Amor faz o que precisa ser feito.
🐕 Ela não tinha berço de luxo pra oferecer. Mas tinha um carrinho velho. E era o suficiente.
🛒 Enquanto o mundo ria, ela empurrava. E o cachorro olhava o mundo com gratidão.
Ela não precisava de aplausos.
Só precisava que ele estivesse vivo.
E feliz.
Mesmo que por mais um dia.