30/12/2025
"...Shiva e Saturno estavam sentados à beira de um penhasco, com a luz da fogueira tremulando em seus rostos. Haviam ficado em silêncio por muito tempo, ambos observando as estrelas se moverem lentamente acima dos picos. Saturno finalmente quebrou o silêncio, sua voz baixa e equilibrada:
— As pessoas passam metade de suas vidas procurando quem agradecer e quem culpar. Shiva sorriu.
— Elas precisam de alguém para colocar na história. É mais fácil do que ver que a maioria das histórias foi escrita muito antes de esta cena começar. Saturno remexeu as brasas com um graveto.
— Quando um antigo karma amadurece, ele sempre precisa de um palco — um rosto para desempenhar o papel, um momento para se manifestar. Mas o ator não é a causa.
— Não — disse Shiva: — A causa está dentro, esperando pelo momento certo. Então a vida envia a cena perfeita: um insulto, um presente, uma surpresa, só o suficiente para trazer a impressão antiga à superfície. Eles continuaram sentados, observando o fogo crepitar. Em algum lugar abaixo, um cachorro latiu uma vez e depois se silenciou novamente. Shiva pegou um pequeno graveto e o jogou nas chamas.
— Se uma pessoa consegue permanecer calma quando esse antigo karma emerge, ele queima limpo. Mas, se ela mergulha na cena, se começa a discutir com o ator, ele se acomoda novamente no interior. Saturno assentiu lentamente.
— Correntes de ferro ou de ouro — disse ele —, têm o mesmo peso até você decidir colocá-las no chão.
O vento mudou de direção, levantando algumas faíscas para o céu escuro. Shiva riu suavemente.
— Essa é a verdadeira arte do karma: saber quando a peça terminou, levantar-se e sair do palco.Saturno sorriu.
— E não levar o figurino com você.
Eles permaneceram em perfeita quietude, dois velhos amigos além do tempo e do karma, observando as estrelas surgirem acima do contorno da montanha..."