27/04/2020
Variáveis ambientais, biológicas, psicológicas e sociais atuam simultaneamente influenciando a tendência ao consumo de dr**as, levando à interação entre o agente droga, o sujeito indivíduo e a sociedade e o meio, contextos socioeconômico e cultural1.
O desenvolvimento da dependência pode ser considerado parte de um processo de aprendizagem. A dependência é o resultado de uma interação complexa entre os efeitos fisiológicos das substâncias psicotrópicas no cérebro e o que o usuário interpreta daquela situação, relacionando-a ao ambiente e consolidando como aprendizado2. Se uma pessoa consome uma substância e sente um efeito psicoativo altamente satisfatório ou reforçador, mais provavelmente tal comportamento se repetirá3. As consequências causadas pelo uso dessas substâncias químicas atingem tanto a qualidade de vida quanto a saúde individual e coletiva. Causam alterações nos sistemas neurotransmissores e déficits cerebrais incluindo aprendizado verbal, memória de curto prazo, atenção, funções executivas, controle e seleção de resposta, resolução de problemas e tomada de decisões4. Geram disfunções nos sistemas cardíaco e respiratório; problemas renais; ansiedade; depressão; problemas de sono; dificuldades financeiras e de relacionamento5; podendo originar violência6.
De acordo com o segundo levantamento domiciliar de dr**as psicotrópicas realizado no Brasil, em 2005, observa-se uma quantidade (muito) grande de dependentes7.
A dependência química pode levar a baixa qualidade de vida, pois está diretamente ligada ao desequilíbrio entre a combinação do bem-estar psicológico e a saúde física8.
A qualidade de vida é a percepção do indivíduo de sua posição na vida, no contexto da cultura e do sistema de valores nos quais vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações9. Existem diversas pesquisas sobre sua importância no processo de tratamento, pois certas atividades e avaliações promovem nos dependentes maior controle da ansiedade, autoestima e autoimagem positivas e responsabilidade social, levando à melhor qualidade de vida10.
Diariamente centenas de indivíduos são encaminhados para clínicas especializadas em desintoxicação de dr**as. Contudo, sabe-se da efetividade das intervenções para a manutenção da abstinência e recuperação de adolescentes11.
Para a reconquista da qualidade de vida positiva, os dependentes devem buscar a prevenção e o tratamento dos transtornos relacionados ao uso de substâncias psicotrópicas. Estas ações proporcionam ao indivíduo a criação do hábito de observar seu comportamento, identificando situações de risco, fazendo-o buscar novas estratégias, e facilitando o desenvolvimento da autoestima, da autoconfiança e da autoajuda. Criam espaço para que o paciente busque sentido em suas próprias vivências, na tentativa de encontrar uma resposta diferente, que não a droga12. Entretanto, são escassas as pesquisas que relacionam a dependência química com a autoestima, a autoimagem e a qualidade de vida, sendo o objetivo deste estudo analisar e comparar essas questões em dependentes químicos do Instituto São José em Santa Catarina (SC).
Métodos
Este estudo de corte transversal realizado no município de São José, em Santa Catarina, em 2009, foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade do Estado de Santa Catarina. Todos os participantes assinaram o termo de consentimento livre e esclarecido.
A amostra por acessibilidade foi composta de 100 pacientes do s**o masculino com média de idade de 43,0 ± 10,7, 8,4 ± 3,7 anos de estudos, variando de analfabetos ao ensino superior completo em tratamento na unidade Jelinek do Serviço de dependência química do Instituto São José. A idade média do primeiro uso de dr**as foi de 16,3 ± 5,2 anos (6 � 45 anos) e idade do primeiro diagnóstico clínico de 34,2 ± 11,5 anos (14 � 69 anos). Estes pacientes já foram internados numa média de 4,6 ± 5,3 vezes e por uma média de 16,7 ± 10,6 dias.
O Instituto São José foi escolhido para amostra por ser referência no tratamento de dependência química em Santa Catarina. A amostra foi composta apenas por homens, pois a clínica não interna mulheres pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e no privado era disponibilizado apenas seis leitos. Entretanto, em todas as visitas as mulheres estavam impossibilitadas de participar do estudo.
Adotou-se como critérios de inclusão ser dependente químico internado, por período mínimo de sete dias, no Instituto São José com idade acima de 18 anos, ter interesse em participar do estudo e assinar o termo de consentimento livre e esclarecido.
Os instrumentos utilizados foram: anamnese contendo informações pessoais e características clínicas; questionário sobre a situação socioeconômica da Associação Nacional de Empresa de Pesquisa13; Teste para Triagem do Envolvimento com Dr**as3; questionário sobre Percepção de Saúde � Behavioral Risk Factors Surveillance System Questionair (BRFSS)14; e de Qualidade de Vida � WHOQOL9. Todos foram aplicados em forma de entrevista.
A anamnese (identificação pessoal) foi composta de (seis) perguntas para identificação pessoal: s**o, idade, escolaridade, estado civil, moradia e trabalho; e sobre características clínicas relacionadas ao início, frequência e tempo do uso de dr**as, internação e atitude de arrependimento.
O instrumento para estratificar a Situação socioeconômica segundo seu poder de compra, o qual classifica a população em classes econômicas A, B, C, D e E, através da pontuação obtida e renda mensal, considerado o principal instrumento de segmentação da população no Brasil.
O teste para triagem do envolvimento com dr**as ASSIST 2.0 contém oito questões sobre o uso de nove classes de substâncias psicoativas (tabaco, álcool, maconha, co***na, estimulantes, sedativos, inalantes, alucinógenos e opiáceos).
A Qualidade de Vida foi mensurada por meio do WHOQOL (World Health Organization Quality of Life) abreviado, que compõe os domínios físico, psicológico, social e ambiental. Sua versão em português foi desenvolvida no Centro WHOQOL para o Brasil, no Departamento de Psiquiatria e Medicina Legal da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul, Brasil, sob a coordenação geral do Dr. Marcelo Pio de Almeida Fleck9.
O questionário desenvolvido por Steglich15 classifica a Autoestima e a Autoimagem. É dividido em quatro categorias. A Orgânica envolve as dimensões genéticas, morfológicas e fisiológicas; a Social abrange o status socioeconômico, as condições de família e as realizações profissionais; a Intelectual engloba escolaridade, educação e sucesso profissional; e a Emocional envolve a felicidade pessoal, o bem-estar social e a integridade moral. O ponto de corte foi estabelecido a partir da multiplicação do total de questões da autoestima (41) e autoimagem (37) pelos maiores escores do questionário (4 e 5). Assim, o intervalo de máximos e mínimos representa Alta autoestima e autoimagem, enquanto valores abaixo deste intervalo foram considerados como Baixa autoestima e autoimagem. Para a classificação das categorias orgânica, social, intelectual e emocional adotou-se os pontos de corte: Orgânica - Baixa = 13 a 51 pontos, Alta = 52 a 65 pontos; Social - Baixa = 13 a 51 pontos, Alta = 52 a 65 pontos; Intelectual - Baixa = 14 a 55 pontos, Alta = 56 a 70 pontos; Emocional - Baixa = 42 a 167 pontos, Alta = 168 a 210 pontos.
A análise dos dados foi realizada no programa estatístico SPSS � versão 16.0. Utilizou-se estatística descritiva, Teste de normalidade Kolmogorov Smirnov e Regressão Logística método Enter, com nível de confiança de 95%.
Resultados
De acordo com a entrevista, 56% dos dependentes possui ensino fundamental, 29% ensino médio e 12% ensino superior.
Observa-se na Tabela 1 que as escolhas a respeito do estado civil sugerem uma vida solitária para os dependentes (52%), entretanto, levando em consideração o item moradia, entende-se que a maioria vive com familiares (82%) e que possui emprego (72%), o que favorece a inserção social. Em relação aos fatores econômicos, a maioria está entre a classe média e alta, representadas pelos estratos A, B e C.
Constatou-se, através das questões respondidas pelos dependentes químicos, que a maioria (57%) já fez algo de que se arrependem, destes, 17% por terem cometido ameaças ou agressões para consumirem dr**as, e apenas 3% admitiram que já cometeram algum crime violento.
A Tabela 2 reflete o julgamento dos dependentes em relação à sua saúde, sendo este positivo em todos os itens questionados. A percepção de saúde parece ser independente da ingestão de medicamentos, pois 100% dos dependentes fazem uso, sendo o complexo vitamínico o mais comum (77%).
Segundo a Tabela 3, os resultados relacionados à média dos escores da qualidade de vida indicam que esta, de uma forma geral, pode ser considerada como boa. Entretanto, a média dos escores não ultrapassou 65%, no quais o domínio ambiental foi o que obteve o maior (65,5 ± 12,2), enquanto o menor foi encontrado no domínio psicológico (58,9 ± 11,5).
Na Tabela 4 é apresentado o resultado da autoestima e da autoimagem mostrando que praticamente todos os pacientes possuem autoestima baixa (96%). Na autoimagem não foi muito diferente, o percentual de autoimagem baixa foi maior (77,0%) do que a autoimagem alta. Nas categorias orgânicas e sociais, a porcentagem foi parecida no que diz respeito à inferioridade mostrando que (88,0% e 83,0%) têm categoria orgânica e social baixa, respectivamente.
Ao fazer-se uso da Regressão Logística método Enter apresentada na Tabela 5, observou-se que os coeficientes das variáveis dos domínios físico, social, psicológico e ambiental são nulos, demonstrando pouca eficácia para o modelo com relação à autoimagem. A única variável, entretanto, que apresentou contribuição no modelo foi o domínio psicológico (p = 0,009). Ao se aplicar o mesmo método para a variável autoestima, constatou-se que os coeficientes das variáveis dos domínios físico, social, psicológico e ambiental também são nulos, com p = 0,496; 0,119; 0,219; 0,684 respectivamente, demonstrando a pouca eficácia do modelo. O que podemos verificar é que os domínios da qualidade de vida de acordo com o modelo não interferem na autoestima e na autoimagem dos dependentes químicos.
Discussão
O principal objetivo deste estudo foi analisar a qualidade de vida, a autoestima e a autoimagem dos dependentes químicos do Instituto São José em Santa Catarina (SC).
A respeito das características socioeconômicas, encontraram-se dois artigos realizados com dependentes químicos que corroboram com este estudo, os quais apresentaram percentuais parecidos a respeito do estado civil: 38% divorciados; 2% viúvos, 44% casados, 33% separados e 21% solteiros16,17.
Diferentes foram os dados relativos ao emprego e nível de escolaridade. Nesta amostra, 72% dos dependentes químicos estavam empregados, porém no estudo de Figlie et al.16 encontraram-se valores menores 49%, diferenciando-se do presente estudo. Sobre a escolaridade não se tem homogeneidade na literatura. No estudo de Oliveira et al.17 57% dos pacientes tinham ensino fundamental, 29% ensino médio e 13% ensino superior, igualmente ao nosso estudo. Na pesquisa de Figlie et al.16 63% dos dependentes químicos possuíam ensino fundamental incompleto e 2% ensino superior completo. Novamente, valores menores aos encontrados no presente estudo, mostrando que os nossos participantes possuíam maior escolaridade e estavam empregados.
A percepção de saúde foi considerada boa por 57% dos dependentes químicos, com 39% julgando-a semelhante a de outras pessoas. Determinantes gerais sobre condições de vida e saúde estão diretamente ligados com a qualidade de vida individual e coletiva18. A autoestima e a autoimagem dos nossos participantes apresentaram-se com escores baixos em ambas as variáveis. As mesmas tiveram escores baixos representando 96 e 77% da amostra, parecendo não influenciar na percepção de saúde do nosso estudo, diferentemente do estudo de Maldonado et al.19.
Neste estudo os dependentes químicos apresentaram um bom nível de qualidade de vida. Pouco se tem investigado sobre a mesma nesta população, o que evidencia a importância do presente estudo. Estudos demonstraram que dependentes de tabaco tiveram escores que variaram de 59,2 a 72,1%1,20 . Assim como no trabalho de Aragão et al.1, os nossos resultados demonstram que os dependentes químicos apresentaram um bom nível de qualidade de vida. Este foi observado em todos os domínios questionados, o que mostra-se importante. O equilíbrio entre os quatro domínios da qualidade de vida é desejável, pois alterações em um ou mais pode gerar mudanças na qualidade de vida21.
Observou-se também que a qualidade de vida não interferiu na autoestima e autoimagem dos dependentes químicos. Este fato pode ter ocorrido pelas características socioeconômicas e de saúde dos dependentes: boa condição de vida, assistência familiar, emprego e boa percepção da saúde.
A principal limitação ocorreu na escolha dos instrumentos por serem questionários autoaplicáveis. Sabe-se que por vezes pode ocorrer um viés de memória nos os dependentes químicos e que no momento em que foram entrevistados estavam em condições de internação, a qual possui peculiaridades. Para minimizar estes problemas, aplicaram-se os mesmos em forma de entrevista.
Considerações finais
Os aspectos interessantes deste estudo estão voltados à ausência de correlação entre as variáveis.
Dependentes químicos internados podem ter um bom nível de qualidade de vida e uma percepção de saúde positiva, o que é surpreendente devido às condições implícitas ao consumo de dr**as. Também podem ter baixa autoestima e autoimagem, situações psíquicas que não interferiram na percepção deles de boa qualidade de vida.
Assim, observou-se que nem sempre existe uma ligação direta, contrária e linear entre essas valências nesta população. Condições socioeconômicas influenciaram decididamente nesta lógica como a assistência da família; a capacidade de ter um emprego e os cuidados com a saúde recebidos na clínica especializada.
Parece que a maior dificuldade para os dependentes é a aceitação de si mesmo, representado pelo caráter psíquico: autoestima e autoimagem.
Frente ao exposto, há a necessidade de mais pesquisas que possam auxiliar o entendimento dos fatores que interferem na dinâmica das variáveis aqui estudadas, permitindo, assim, uma atuação profissional que possa melhorar a autoestima e autoimagem dos dependentes químicos. O exercício físico promove mudanças positivas nestes aspectos, porém deve ser estudado e prescrito especificamente para esta população.