
09/06/2025
🖤 O estranho caso da vida que continua — mesmo quando ninguém está vivendo
É fascinante observar como a humanidade segue funcional.
Acorda no horário, responde “tudo certo” no WhatsApp, paga os boletos no débito automático, lava a louça.
Cumpre tabela com uma precisão quase cirúrgica.
Enquanto isso, a alma, coitada, vai pendurada no varal, entre as roupas que ninguém mais usa e as que ainda não tiveram tempo de secar.
Ali, esquecida, tomando sol sem saber se volta ou se evapora.
É um espetáculo silencioso.
Todo mundo postando stories com sorrisos milimetricamente posicionados, fotos em sequência, drinks no meio da semana —
Como se alegria pudesse ser fabricada em 15 segundos com um filtro bonito e uma legenda espirituosa.
E o vazio?
Esse é discreto.
Se esconde entre um episódio e outro da série que já perdeu o sentido, mas continua tocando.
Entre uma risada alta e o gole seguinte.
Entre o “vamos marcar” e o scroll infinito.
A verdade é que muita gente não quer morrer.
Só não sabe mais como é que vive.
E viver, no mundo de hoje, exige coragem.
Coragem pra sentir, pra parar de fingir que tá tudo bem o tempo todo.
Coragem pra olhar pra alma ressecada e dizer: “Eu te ouvi.”
Não se trata de positivismo barato.
Nem de autoajuda de cinco linhas.
Se trata de presença, mesmo nos dias em que viver dói — e tudo que se tem pra oferecer ao mundo é um olhar sincero e um suspiro cansado.
Como psicóloga, vejo isso todos os dias.
E, às vezes, vivo também.
Porque ninguém está imune a crises existenciais, muito menos quem trabalha ouvindo as dores do mundo.
Mas tem algo de valioso em parar tudo e se permitir sentir.
Mesmo que o dia termine com os olhos inchados de tanto chorar.
Ainda assim, é possível ir dormir com a estranha alegria de quem, enfim, ouviu a própria alma sussurrar:
"Obrigada. Eu ainda estou aqui."
Com amor, psi Bianca, que também recolhe roupa no varal entre crise e outra.