12/03/2026
Transtornos alimentares raramente dizem respeito apenas à comida. Na clínica psicanalítica, o corpo é escutado como o lugar onde a dor se manifesta quando faltam palavras para nomear um trauma ou um desamparo profundo.
A compulsão surge como uma busca por anestesia emocional, preenchendo uma falta que não é física. Por outro lado, a restrição alimentar severa aponta para uma necessidade extrema de controle: quem vivenciou a impotência diante de uma situação limite encontra na privação uma forma de domínio sobre a própria existência. Até mesmo o ato de expulsar, na bulimia, carrega o sentido psíquico de tentar colocar para fora um registro insuportável.
O sofrimento atinge o físico justamente porque não encontrou vias de elaboração mental. Por isso, o tratamento exige muito mais do que dietas ou apelos à força de vontade. É preciso investigar o que esse comportamento está comunicando.
A análise oferece o espaço para que a dor encontre contorno na fala. Quando a pessoa consegue traduzir sua angústia em palavras, o corpo deixa de ser o único cenário disponível para o sofrimento, permitindo que a boca volte a ser usada para falar sobre a própria dor, e não apenas para silenciá-la.
✍️ Jéssica Gontijo (@jessicagontijopsi)
Psicóloga e psicanalista (CRP23/2040) no @lacunapsi