11/03/2020
Excelente texto para pensarmos a maternidade
QUEM É QUE MAMA?
Os bebês humanos nascem sem corpo. Sim, bebês humanos nascem com organismos funcionando, mas sem corpo. Nascemos marcados por uma impotência para a vida, por uma impossibilidade de nos virarmos.
Mãe é o ser que nos dá corpo. Nos dá o corpo dela, assim, literalmente. Nos oferece a subjetividade dela. Antes de ser mãe me parecia um exagero dizer que para uma mãe de recém-nascido tomar banho era luxo, mas é isso mesmo. Lavar os cabelos, então, vish.
Um bebê vai ganhando o seu corpo só depois de ganhar o corpo da mãe. É o corpo da mãe que nos constitui, antes de tudo (aliás, não é de lá que costumamos sair? [Digo aqui que "costumamos" porque nem toda mulher que dá à luz se torna mãe e nem toda aquela que se torna mãe, dá à luz].
Apesar do puro horror que pode ser isso de mal poder tomar banho, para as mulheres que têm filho, a coisa é meio via "credo, que delícia". Um misto de angústia com uma intensa satisfação. Uma mescla de socorro-alguém-me-ajude com venha-aqui-e-não-saia-nunca-mais-coisa-mais-fofa-do-mundo!
Uma mãe se satisfaz com seu bebê, se tudo estiver bem. Falar da dependência do bebê em relação à mãe, é secundário. O bebê depende da mãe porque a mãe depende do bebê. Eles se dependem. Quando uma mulher mãe amamenta, ela também mama algo em seu bebê. Satisfação, prazer, alegria!
O momento do desmame acontece, então, via mãe. É preciso desmamar a mãe, antes de tudo. É importante que uma mãe sinta saudades de seu corpo feminino, em algum momento. Que ela queira seu peito para si e seus prazeres de mulher, de novo.
É só como consequência do aparecimento da mulher na mãe que uma mãe pode sustentar seu desejo de desmame - que é também uma aposta em seu filho, que ele já tenha o seu próprio corpo, não precisando mais do dela assim, tão literalmente.
Se uma mãe mama demais seu filho, se satisfaz demais com seu lugar de mãe de bebê, dali ele não pode sair. E nem ela. É a mulher na mãe que pode fazer furo nessa relação e liberar cada um dos dois para encontrar satisfações diferentes em outros lugares.