11/04/2022
Ao nascer, somos inseridos num campo de linguagem que vai nos constituindo como sujeitos, desde o nosso nome que é escolhido por um outro, aos atributos que vamos recebendo ao longo da vida: "Bagunceiro", "nervosa", "reclamão", "burra", "esperto", "oferecida", a lista é interminável. São muitos os dizeres que nos formam, os da família, das leis, da cultura, da propaganda, dizeres que vão nos constituindo e nos concedendo um uso da palavra que nos encaixota em padrões, que não nos transforma, um uso de palavra vazia, como disse Lacan. Estes dizeres nos ocupam e nos distraem para que esqueçamos do nosso desejo ou para que nada saibamos dele. Desejo esse - falo aqui do pulsional - que só se acessa por um outro uso da palavra, um uso implicado, que escuta o que diz e se pergunta sobre o que está dizendo. Rompendo com a superficialidade das falas cotidianas para um falar comprometido com o que lhe afeta. Trata-se de um outro uso da linguagem, que Lacan chamou de palavra plena.
Fazer este outro uso da língua, ao qual se aplica o trabalho de uma análise, nos coloca numa tarefa ética - a da produção de uma vida singular e de um dizer que fala da verdade do nosso desejo pulsional. Trata-se de fazer rupturas nas massas densas dos sentidos já dados no campo social - massas de sentidos absolutos que nos sufocam e nos adoecem, para se embrenhar na criação de novos sentidos. Fazendo emergir a singularidade - a diferença absoluta de uma vida em sua força e potência de viver.
A vida sempre nos atravessa e nos pede por algo que precisa ser dito, mas sobretudo, nos atravessa pedindo por um ato. Ela nos convoca a avaliá-la em seus próprios termos, e nos exige - a cada vez - um ato à sua altura. O que não é nomeado, vira sintoma, e o que não é posto em ação quando faz-se necessário agir, também.