17/08/2025
Há uma comunicação silenciosa entre os olhares de quem cuida. Por alguma razão, certamente humana, desde o diagnóstico de câncer da minha mãe passei a reconhecer uma linguagem que parece existir apenas nos corredores, na distância entre os bancos desconfortáveis das salas de espera e, principalmente, no desespero coletivo por notícias melhores. A conversa soa como um diálogo implícito entre os cuidadores. Não chega a ser secreta, mas definitivamente é privada. Quem está na condição de ser cuidado não tem acesso a essa linguagem; estão ocupados demais tentando resistir à doença.
A conversa entre os suportes é sutil, porque transcende o gesto gentil de emprestar uma extensão no pronto-socorro, indicar o banheiro mais próximo, apontar a ilha da enfermagem, oferecer um pedaço de bolo. Somos irmãos do caos. E essa irmandade dura até a alta ou até a indicação de um remédio milagroso enviado mais tarde pelo WhatsApp.
Pensando bem, talvez não seja exatamente um diálogo. Está mais para uma espécie de choro autorizado, um momento oportuno que vem como suspiro: seco, interrompido, contido, ceifado. No fundo, todos sabemos que ali não se pode abrir as comportas. Até seríamos capazes de salvar uns aos outros da enchente de choros represados, afinal, somos especialistas nisso; mas também faz parte do acordo silencioso não exaurir quem precisa de forças para seguir. Nossa compaixão não pode, em hipótese alguma, ser fadigada.
Por isso, a sutileza. É como se entregássemos uns aos outros clemência, humanidade, esperança… No final, todos nós sabemos o quanto a cura mora na tranquilidade…