09/01/2026
Ultimamente, tem chegado para mim nas redes sociais diversos relatos de usuários de apps de relacionamento/sexo que sofreram emboscadas nos encontros. Pior do que isso: quando a gente lê os comentários, a culpa quase sempre recai sobre a vítima.
“Quem mandou ir?”
“Por que estava nesse app?”
“O que mais esperava?”
Isso nada mais é do que a história se repetindo. A sociedade sempre culpou pessoas LGBT+ pela violência que sofrem, como se o preconceito e o ódio fossem consequência das nossas escolhas, e não de uma estrutura violenta que nos atravessa. Eximir o agressor e responsabilizar a vítima é uma estratégia antiga.
Não por acaso, essa crítica já aparecia lá atrás, em iniciativas como o Lampião da Esquina, uma das primeiras publicações voltadas à comunidade LGBT+ no Brasil, que denunciava justamente essa lógica: a de que a violência contra g**s era tratada como “risco assumido”, ou seja, era função do jornal, da própria comunidade, de denunciar e vigiar esses cr1mes.
O fato é que esses crimes não acontecem porque usamos aplicativos. Eles acontecem porque nossa comunidade é mais vulnerabilizada socialmente, com menos proteção, menos políticas públicas, menos acesso à informação e à segurança. Para muitas pessoas LGBT+, especialmente fora dos grandes centros ou em contextos familiares hostis, os apps não são uma escolha “imprudente” . Aliás, são a única possibilidade de encontro, afeto e conexão.
Quando culpamos a vítima, deixamos intacta a verdadeira raiz do problema: a LGBTfobia estrutural, a negligência do Estado e a normalização da violência contra nossos corpos.
A pergunta certa não é “por que você estava no app?”, mas sim:
por que ainda é tão perigoso ser LGBT+ no Brasil?