11/11/2025
O último poeta da sarjeta
A diferença entre a vida e a arte é que a arte é mais suportável.”
— Charles Bukowski, Notes of a Dirty Old Man (1969)
Provavelmente tirada em sua casa, na década de 1970 ou 1980 essa foto mostra Charles Bukowski, o lendário escritor e poeta dos Eua, em um de seus momentos mais característicos: bebendo enquanto trabalha em sua máquina de escrever. A imagem sintetiza a figura mítica que ele mesmo construiu — a do autor marginal, cínico e brutalmente honesto, que transformou a solidão, o álcool e a rotina ordinária em literatura.
Bukowski não escrevia para ser lido. Escrevia para sobreviver. “Escrevo para não enlouquecer”, disse certa vez — e talvez toda a sua obra nasça desse fio tênue entre o desespero e a lucidez.
Enquanto o mundo fabricava discursos sobre sucesso e virtude, ele se trancava em um quarto imundo e dizia: “Encontre o que você ama e deixe que isso te mate.”
O público o idolatrava como o último dos poetas malditos — o bêbado sábio, o homem que transformava o fracasso em arte.
A academia, ao contrário, o via como um intruso vulgar: “um marginal que mancha a literatura com cheiro de cerveja e nicotina”.
Mas Bukowski jamais quis respeito. Quis apenas ser honesto com a vida cotidiana de muitos. “Algumas pessoas nunca enlouquecem. Que vidas horríveis elas devem ter.” Ele também dizia que:
“Você tem que morrer algumas vezes antes de realmente viver”, escreveu em um de seus poemas e talvez tenha sido isso que fez dele um escritor tão vivo: morrer um pouco em cada página, para que o leitor respirasse no lugar dele.
No fundo, Bukowski escreveu sobre todos nós sobre o homem comum, esmagado por contas, tédio e medo. Sobre quem acorda cansado e mesmo assim segue em frente. Sobre quem sonha, mesmo sabendo que vai perder.
“Você começa a salvar o mundo salvando uma pessoa de cada vez, tudo o que você realmente pode fazer é salvar a si mesmo.”
Entre a garrafa e a máquina de escrever, ele fez da miséria uma forma de liberdade. E nos lembrou, com seu sarcasmo e ternura brutal, que o fracasso também é uma maneira de vencer quando se tem coragem de encará-lo de frente.
Texto de Paulo Henrique Máximo Lacerda – A História Esquecida
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