Psicóloga Flávia Procópio

Psicóloga Flávia Procópio Atendimento psicológico de crianças, adolescentes e adultos na abordagem psicanalítica.

Quantas coisas você perdeu por não dizer o que sente?A gente aprende cedo a medir palavras, a engolir verdades, a adiar ...
26/03/2026

Quantas coisas você perdeu por não dizer o que sente?
A gente aprende cedo a medir palavras, a engolir verdades, a adiar confissões como se o tempo fosse sempre generoso. Como se houvesse depois. Como se o outro fosse permanecer disponível, aberto, ali esperando exatamente o momento em que a gente finalmente se autoriza a falar.

Mas o que não é dito não f**a guardado intacto. O silêncio também transforma. Ele distorce, endurece, às vezes apaga. Aquilo que poderia ter sido encontro vira suposição. O que poderia ter sido gesto vira falta. E o que era desejo vai se acomodando em um lugar mais seguro e mais triste.

Não dizer o que sente não é só evitar um risco. É também escolher uma perda.

Perde-se a chance de ser visto de verdade.
Perde-se a possibilidade de construir algo que só existiria a partir daquela verdade dita.
Perde-se o direito de ocupar um lugar inteiro na própria história.

E, ainda assim, o silêncio seduz. Porque falar implica se expor, e se expor implica não ter controle sobre o que o outro fará com aquilo. Talvez ele não corresponda. Talvez ele vá embora. Talvez ele não entenda.

Mas o curioso é que, tentando evitar essas perdas, a gente cria outras mais silenciosas, mais prolongadas.

Perdas que não fazem barulho, mas que vão se acumulando: relações que nunca começam, afetos que nunca se aprofundam, versões de si mesma que nunca chegam a existir.

Dizer o que se sente não garante permanência.
Mas não dizer garante ausência.
E no fim, talvez a pergunta não seja só sobre o que você perdeu, mas sobre o que ainda está disposto a perder para continuar em silêncio.

“Será que é amor?”Essa pergunta insiste no início de quase todo relacionamento A intensidade confunde.O desejo atravessa...
18/03/2026

“Será que é amor?”
Essa pergunta insiste no início de quase todo relacionamento

A intensidade confunde.
O desejo atravessa.
E algo no encontro parece prometer mais do que pode cumprir.
Mas o que, de fato, está em jogo quando perguntamos isso?

“Não existe relação sexual”, dizia Lacan.
Não porque os corpos não se encontrem, eles se encontram.
Mas porque, mesmo no encontro, algo não se registra.
Quando toco, não sinto o que o outro sente, sinto apenas a minha sensorialidade.
Quando amo, não sei o que se passa no outro, sei apenas de mim mesmo.

E ainda assim, queremos saber: isso que eu sinto encontra algo do lado de lá?
A gente tenta responder a essa pergunta interpretando sinais.
Mas nada disso é garantia.
Porque o amor não é acessível de forma direta.

O amor do outro não se vê, ele se supõe e é aí que a fantasia entra.
É pela fantasia que organizamos o encontro, que damos sentido ao que o outro faz, que sustentamos a ideia de que há uma correspondência possível.

Então talvez a pergunta não seja apenas
“será que é amor?”
Mas o que em mim está sendo amado quando eu amo?
E o que, no outro, eu suponho quando digo que ele me ama?

Não há garantia.
Não há acesso total.
Não há como medir com exatidão.
O que há é outra coisa.
Não a fusão, que é impossível, mas a forma como o vínculo se sustenta no tempo.

Na implicação.
Na repetição dos gestos.
Na responsabilidade pelo laço.
Porque, no fim,
amar não é ter certeza do que o outro sente.
É sustentar um encontro
mesmo sem saber.

E talvez o amor comece justamente aí:
quando a fantasia não desaparece,
mas já não dá conta de tudo.


Ciúme é linguagem.A gente sente ciúme quando algo em nós se sente ameaçado e nem sempre é o outro que ameaça, mas o luga...
17/03/2026

Ciúme é linguagem.

A gente sente ciúme quando algo em nós se sente ameaçado e nem sempre é o outro que ameaça, mas o lugar que acreditamos ocupar na vida dele.

Porque quando alguém se torna importante, não é só sobre gostar.
É sobre o quanto essa pessoa passa a sustentar partes nossas:
nossa autoestima, nosso desejo, nossa sensação de ser escolhida.

E então, qualquer possibilidade de perda, real ou imaginada, já é suficiente para nos atravessar.

Às vezes, não é sobre o que o outro faz.
É sobre o que isso desperta: o medo de não ser suficiente,
de não ser prioridade,
de ser trocada,
de não ser, de novo, escolhida.

O ciúme tenta proteger a gente da incerteza.
Tenta dar contorno ao que é instável.
Tenta criar controle onde, na verdade, só existe o imprevisível: o desejo do outro.

E é aí que ele nos engana.

Porque, na tentativa de não perder,
a gente pode acabar sufocando, vigiando, diminuindo o outro, como se fosse possível garantir permanência à força.

Mas não é.

O problema não é sentir ciúme.
É não escutar o que ele revela.

O ciúme pode ser um convite:
olhar para dentro, reconhecer nossas inseguranças, nossas histórias, nossas faltas.

Porque no fundo, ele sempre aponta para a mesma pergunta:
o que, em mim, teme tanto não ser suficiente?

Amar alguém é aceitar um risco inevitável:
o risco de não ter garantias.

E talvez amadurecer no amor
seja aprender a sustentar esse risco
sem tentar transformar o outro em certeza.


08 de março não é uma data de celebração. É um lembrete incômodo de que ainda temos um longo caminho pela frente.Um cami...
08/03/2026

08 de março não é uma data de celebração. É um lembrete incômodo de que ainda temos um longo caminho pela frente.

Um caminho para recuperar aquilo que tantas vezes nos foi roubado: a nossa autoestima, a nossa confiança, a nossa sensação de valor. Desde muito cedo, muitas mulheres aprendem — direta ou indiretamente — que precisam ser mais, fazer mais, suportar mais para serem dignas de amor, respeito e reconhecimento.

Mas existe uma lição que quase nunca nos ensinaram: nós já somos suficientes.

Fomos treinadas a duvidar de nós mesmas. A achar que nosso corpo é inadequado, que nossas emoções são exageradas, que nossa voz é alta demais ou firme demais. Aprendemos a nos vigiar, a nos corrigir, a nos diminuir.

E é por isso que falar de amor-próprio, para muitas mulheres, não é um gesto simples — é quase um ato político.

bell hooks nos lembra da importância de desenvolvermos uma prática amorosa conosco mesmas. Amar a si não é um gesto superficial ou individualista. É um processo profundo de reconstrução interna. É aprender a nos tratar com o cuidado, o respeito e a dignidade que tantas vezes nos foram negados.

Praticar esse amor é reaprender a escutar a própria voz.
É reconhecer nossos limites.
É parar de aceitar violências — mesmo aquelas que foram naturalizadas.

Talvez esse seja um dos movimentos mais potentes do nosso tempo: mulheres reaprendendo a se amar, a se sustentar em si mesmas e a não negociar a própria dignidade.

Porque quando uma mulher entende que é suficiente, algo muda.
E quando muitas mulheres entendem isso juntas, o mundo também precisa mudar.

Pior do que acreditar que o amor machuca é acreditar que quem te machuca te ama.bell hooks é direta: amor não é um senti...
26/02/2026

Pior do que acreditar que o amor machuca é acreditar que quem te machuca te ama.

bell hooks é direta: amor não é um sentimento que simplesmente “acontece”. Amor é uma prática ética. Ela o define como a combinação de cuidado, afeto, reconhecimento, respeito, compromisso e confiança. Se esses elementos não estão presentes de forma consistente, não estamos falando de amor, ainda que exista desejo, apego ou intensidade
Isso desmonta uma crença muito difundida: a de que “quem ama machuca”. Para hooks, abuso e amor são incompatíveis. Violência não é excesso de amor, é ausência dele. Controle não é proteção. Ciúme não é prova de profundidade. Humilhação não é correção. Onde há dominação e desrespeito, não há prática amorosa.

Um dos pontos mais importantes que ela traz é que fomos socializados numa cultura que normaliza a violência nas relações íntimas. Aprendemos a chamar de amor aquilo que, na verdade, é medo de abandono, dependência emocional ou repetição de padrões familiares. Quando crescemos vendo dor ser confundida com vínculo, passamos a acreditar que intensidade e sofrimento caminham juntos.

Mas hooks insiste: amor verdadeiro promove crescimento. Ele amplia nossa capacidade de ser quem somos. Se uma relação exige que você se diminua, se silencie, suporte agressões físicas ou psicológicas para que o vínculo continue, isso não é amor, é uma dinâmica de poder.

A grande armadilha está na alternância. A pessoa que machuca pode também ser carinhosa. Pode pedir desculpas. Pode prometer mudar. E esses momentos de afeto fazem parecer que “no fundo há amor”. Mas, como hooks nos lembra, amor é prática contínua, não gesto esporádico. Não se sustenta em ciclos de agressão e reparação.

Reconhecer isso dói. Porque desmonta a fantasia de que suportar tudo é prova de maturidade afetiva. Mas também liberta. Se amor é uma escolha ética, então ele não pode coexistir com a violência.

Amor pode frustrar, pode terminar, pode não ser suficiente. Mas não pode ferir sua dignidade e ainda querer ser chamado de amor.

“Será que é amor?”Essa pergunta atravessa quase todo início de relação. E, diferente do que vendem por aí, ela não é sin...
18/02/2026

“Será que é amor?”
Essa pergunta atravessa quase todo início de relação. E, diferente do que vendem por aí, ela não é sinal de fraqueza, é sinal de lucidez.

No começo, há intensidade, projeção, expectativa. A gente não se apaixona apenas pela pessoa real, mas pelo que ela representa, pelo que imaginamos que ela pode ser, pelo lugar que ocupa nas nossas faltas. Amor não começa puro, começa misturado com desejo, fantasia, idealização e, muitas vezes, carência.

Por isso a dúvida aparece.

Não existe um termômetro universal que diga: “agora virou amor”. O que existe é tempo, realidade e repetição. É no cotidiano e não no arrepio,que algo se revela.

Eu posso ser quem eu sou nessa relação ou estou performando para ser escolhida?
Existe respeito mesmo quando há frustração?
Conseguimos atravessar conflitos sem humilhação ou violência?
O desejo se sustenta para além da novidade?
Essa relação me amplia ou me encolhe?

Amor não é só intensidade. Às vezes, intensidade demais é ansiedade, é medo de perder, é necessidade de garantir lugar. Amor também não é ausência de dúvida, é disposição para atravessá-la.

E sobre “a pessoa certa”?
Não existe alguém que encaixe perfeitamente nas nossas fantasias. Existe alguém com quem é possível construir. A escolha não é sobre perfeição, é sobre compatibilidade de valores, sobre maturidade emocional, sobre como cada um lida com frustração, limite e responsabilidade afetiva.
Escolher alguém é também escolher os conflitos que vêm junto. Toda relação terá impasses. A pergunta mais honesta talvez não seja “essa é a pessoa certa?”, mas: “com essa pessoa, eu consigo sustentar o que construímos quando o encanto inicial passar?”

Amor não é garantia de permanência. É uma aposta consciente, renovada no tempo.
E, no fundo, a escolha do outro sempre passa por algo anterior: eu sei o que desejo? Ou estou tentando preencher um vazio que é meu?
Amar é menos sobre encontrar alguém perfeito e mais sobre sustentar uma relação real.

Não é o desejo que nos falta.O que falta, quase sempre, é saber de qual desejo estamos falando.Na psicanálise, o desejo ...
11/02/2026

Não é o desejo que nos falta.
O que falta, quase sempre, é saber de qual desejo estamos falando.

Na psicanálise, o desejo não se confunde com vontade, nem com necessidade. Ele não é algo que se resolve ao ser satisfeito. Ao contrário: o desejo nasce da falta, se organiza em torno dela e se sustenta justamente porque não pode ser plenamente preenchido. Quando um desejo se satisfaz por completo, ele deixa de ser desejo vira consumo, alívio momentâneo, anestesia.

Por isso, o problema raramente é não realizar o que desejamos. O impasse está em desejar coisas que não nos pertencem, que foram emprestadas: desejos herdados da família, da cultura, das expectativas do outro, do ideal de quem deveríamos ser. Muitas vezes corremos atrás de algo com intensidade, e quando alcançamos, sentimos um vazio difícil de nomear. Não era aquilo. Nunca foi.

O desejo, para a psicanálise, é sempre atravessado pelo Outro. Ele se constitui na linguagem, no olhar, na falta que nos funda como sujeitos. Desejamos a partir do que nos faltou, do que foi interditado, do que foi prometido e não entregue. E é por isso que saber o que se deseja exige escuta não do mundo, mas de si, das repetições, dos tropeços, dos incômodos.

Há quem sofra tentando satisfazer todos os desejos.
Há quem sofra mais ainda sem saber o que realmente deseja.

Saber o próprio desejo não traz paz constante. Traz responsabilidade. Implica renunciar a certos ideais, decepcionar expectativas, sustentar escolhas que nem sempre são confortáveis. Mas também nos aproxima de uma vida menos automática, menos guiada pela demanda do outro.

Talvez o trabalho mais difícil não seja realizar desejos,
mas desembaraçá-los, separar o que é meu do que me foi imposto e ter coragem de sustentar aquilo que, mesmo faltante, insiste em me mover.

Porque o desejo, quando é próprio, não promete completude, ele oferece direção.

Nós não conseguimos ser tudo para o outro.Algo sempre escapa, sempre f**a de fora.E não é pouco, isso toca direto no ego...
04/02/2026

Nós não conseguimos ser tudo para o outro.
Algo sempre escapa, sempre f**a de fora.
E não é pouco, isso toca direto no ego, na fantasia de suficiência, nessa vontade quase infantil de ocupar todos os lugares.

Queremos ser tudo porque ser tudo nos pouparia da falta.
Se eu sou tudo o que você precisa, então não há risco, não há ameaça, não há concorrência, não há perda.
Mas o amor não se organiza assim.
O desejo nasce justamente onde não damos conta.
Onde o outro não nos completa, não nos encerra, não nos resolve.

É ali que a relação respira.
Quando tentamos ser a parte que faltava, muitas vezes deixamos de ser quem somos.
Viramos função, remendo, promessa de completude.
E isso cansa, adoece, empobrece o encontro.
Aceitar que não somos tudo é aceitar que o outro é inteiro antes de nós.

Que ele tem desejos, histórias, faltas e excessos que não nos pertencem.
E que o vínculo não se sustenta pela fusão, mas pela possibilidade de encontro entre dois incompletos.
Talvez o mais amoroso não seja ser tudo.
Mas ser presença possível.

Ser quem f**a, mesmo sabendo que algo sempre faltará e que está tudo bem que falte.

Quem nunca saiu de uma sessão de terapia com o peito apertado, a testa quente, e aquela certeza meio infantil e meio fur...
26/01/2026

Quem nunca saiu de uma sessão de terapia com o peito apertado, a testa quente, e aquela certeza meio infantil e meio furiosa: “não volto mais”?

Às vezes não é raiva exatamente. É um incômodo profundo. Algo foi tocado sem aviso, deslocado do lugar conhecido. O terapeuta não disse o que esperávamos, não acolheu como imaginávamos, fez uma pergunta que soou dura demais ou simplesmente ficou em silêncio quando queríamos colo. E aí dói. Porque a terapia não serve para confirmar nossas defesas, ela existe justamente para tensioná-las.

No dia da sessão, tudo parece excessivo. As palavras ecoam errado, a interpretação soa injusta, a sensação é de ter sido mal compreendida. Dá vontade de fechar a porta, proteger o que foi exposto, interromper o processo. Mas o curioso é que a análise não termina quando a sessão acaba.

No decorrer da semana, algo começa a se assentar. Não porque a dor desapareceu, mas porque ela ganhou contorno. Aquilo que irritou passa a fazer sentido, não como verdade absoluta, mas como fenda. Um ponto de trabalho. A raiva, então, se revela: não era contra o terapeuta, mas contra o que foi visto em nós e que já estava lá antes.

A terapia, muitas vezes, funciona assim: primeiro desorganiza, depois elabora. Primeiro fere o narcisismo, depois amplia o olhar. O desejo de não voltar pode ser, paradoxalmente, sinal de que algo importante foi alcançado. Porque onde não há afeto, não há trabalho. Onde nada se move, nada se transforma.

Voltar não é sobre concordar com tudo. É sobre sustentar o desconforto tempo suficiente para escutar o que ele quer dizer. E, quando a raiva encontra palavras, ela deixa de ser ruptura e pode virar caminho.
Nem toda boa sessão é confortável. Algumas são necessárias justamente porque doem.

Como eu me relaciono comigo mesma e com os outros quase sempre foi aprendido a partir das nossas dinâmicas familiares.É ...
11/01/2026

Como eu me relaciono comigo mesma e com os outros quase sempre foi aprendido a partir das nossas dinâmicas familiares.

É ali, nos primeiros vínculos, que aprendemos, muitas vezes sem palavras, o que é amor, conflito, silêncio, cuidado e abandono.

Aprendemos se o afeto vem junto com medo, se o amor precisa ser merecido, se o desejo pode ser expresso ou deve ser contido. Aprendemos a nos calar para não perder, a agradar para sermos vistas, a nos defender para não doer. A família, mais do que um lugar, é um roteiro: ela nos ensina como amar, como pedir, como faltar e como suportar a falta.

É por isso que, na vida adulta, tantas relações parecem repetições disfarçadas. Escolhemos o que nos é familiar, mesmo quando dói. Confundimos intensidade com amor, controle com cuidado, distância com autonomia. Não porque queremos sofrer, mas porque é esse o idioma afetivo que aprendemos a falar.

Mas aquilo que foi aprendido também pode ser interrogado. Olhar para as próprias dinâmicas familiares não é para culpar, é para compreender. É nesse movimento que algo se desloca, quando reconhecemos de onde vem nossos modos de amar, ganhamos a chance de escolher diferente.

Relacionar-se consigo mesma passa, então, por reaprender. Aprender a se tratar com a delicadeza que talvez faltou. Aprender a sustentar limites, a tolerar frustrações, a desejar sem culpa. E, pouco a pouco, construir vínculos que não sejam apenas repetições do passado, mas possibilidades de algo novo.

Nem tudo que nos constituiu precisa nos determinar. Algumas heranças podem ser transformadas em escolha. Outras, em silêncio finalmente interrompido.

A terapia não é um lugar cômodo.Nem para o analista, nem para o analisando.Para quem fala, não é espaço de repouso ou ac...
09/01/2026

A terapia não é um lugar cômodo.
Nem para o analista, nem para o analisando.

Para quem fala, não é espaço de repouso ou acomodação.
É travessia.
É quando o chão conhecido falha e a palavra precisa inventar outro caminho.
Ali não se chega pronto, chega-se em falta
e é justamente essa falta que move o trabalho.

Para quem escuta, tampouco há conforto.
O analista não ocupa o lugar do saber absoluto,
não oferece respostas prontas nem garantias.
Sustenta um não-lugar:
escuta sem tamponar, presença sem invadir,
uma posição ética que exige constante deslocamento de si.

A terapia acontece no entre.
Entre o que é dito e o que escapa,
entre o desejo de compreender e a impossibilidade de dizer tudo,
entre dois sujeitos que não se encontram pela completude,
mas pelo que falta a ambos.

Talvez por isso a terapia não seja um lugar cômodo,
mas um espaço de movimento.
Onde algo sempre se desloca,
e de onde ninguém sai exatamente igual a como entrou.

Foi um ano difícil.Daqueles que não se atravessam ilesos. Um ano de desafios incontáveis, em que a sensação era a de ter...
23/12/2025

Foi um ano difícil.
Daqueles que não se atravessam ilesos. Um ano de desafios incontáveis, em que a sensação era a de ter vivido muitas vidas dentro de apenas 365 dias.

Essa intensidade não ficou restrita a mim. Eu a vi refletida nas pessoas que atendi, nos amigos, na família. Como se todos estivéssemos, à nossa maneira, tentando sustentar o próprio fôlego enquanto o mundo exigia mais do que parecia possível oferecer.

Houve momentos em que duvidei que chegaria a dezembro intacta. E talvez não tenha chegado mesmo, ao menos não da forma como comecei. Porque viver muitas vidas também é aceitar que algo sempre se transforma, se quebra, se refaz.

Chego a dezembro com a certeza da caixinha de surpresas que é a vida. Da força do inesperado, que nos pega desprevenidos e, às vezes, nos salva. Da delicadeza com que o amor bate à porta quando já não o aguardávamos. De como a esperança pode florescer num piscar de olhos, mesmo depois de longas estações de aridez.

Me emociono ao acompanhar a trajetória das pessoas que confiaram a mim suas lágrimas, risadas, tristezas e alegrias. Há algo de profundamente humano e sagrado, em ser escolhida como testemunha desses processos. Em sustentar silêncios, acolher dores, celebrar conquistas que nem sempre fazem barulho, mas transformam tudo.
Neste último mês do ano, temos colhido frutos deliciosos. Frutos de coragem, de permanência, de quem não desistiu de si apesar do cansaço. Frutos que não apagam as dificuldades vividas, mas dão sentido a elas.

Talvez seja isso que dezembro nos ensine: não saímos intactos, mas seguimos vivos. E isso, por si só, já é uma grande vitória.

Endereço

Rua Dom Pedro II, 1382
Piracicaba, SP

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