Psicóloga Flávia Procópio

Psicóloga Flávia Procópio Atendimento psicológico de crianças, adolescentes e adultos na abordagem psicanalítica.

Não é o desejo que nos falta.O que falta, quase sempre, é saber de qual desejo estamos falando.Na psicanálise, o desejo ...
11/02/2026

Não é o desejo que nos falta.
O que falta, quase sempre, é saber de qual desejo estamos falando.

Na psicanálise, o desejo não se confunde com vontade, nem com necessidade. Ele não é algo que se resolve ao ser satisfeito. Ao contrário: o desejo nasce da falta, se organiza em torno dela e se sustenta justamente porque não pode ser plenamente preenchido. Quando um desejo se satisfaz por completo, ele deixa de ser desejo vira consumo, alívio momentâneo, anestesia.

Por isso, o problema raramente é não realizar o que desejamos. O impasse está em desejar coisas que não nos pertencem, que foram emprestadas: desejos herdados da família, da cultura, das expectativas do outro, do ideal de quem deveríamos ser. Muitas vezes corremos atrás de algo com intensidade, e quando alcançamos, sentimos um vazio difícil de nomear. Não era aquilo. Nunca foi.

O desejo, para a psicanálise, é sempre atravessado pelo Outro. Ele se constitui na linguagem, no olhar, na falta que nos funda como sujeitos. Desejamos a partir do que nos faltou, do que foi interditado, do que foi prometido e não entregue. E é por isso que saber o que se deseja exige escuta não do mundo, mas de si, das repetições, dos tropeços, dos incômodos.

Há quem sofra tentando satisfazer todos os desejos.
Há quem sofra mais ainda sem saber o que realmente deseja.

Saber o próprio desejo não traz paz constante. Traz responsabilidade. Implica renunciar a certos ideais, decepcionar expectativas, sustentar escolhas que nem sempre são confortáveis. Mas também nos aproxima de uma vida menos automática, menos guiada pela demanda do outro.

Talvez o trabalho mais difícil não seja realizar desejos,
mas desembaraçá-los, separar o que é meu do que me foi imposto e ter coragem de sustentar aquilo que, mesmo faltante, insiste em me mover.

Porque o desejo, quando é próprio, não promete completude, ele oferece direção.

Nós não conseguimos ser tudo para o outro.Algo sempre escapa, sempre f**a de fora.E não é pouco, isso toca direto no ego...
04/02/2026

Nós não conseguimos ser tudo para o outro.
Algo sempre escapa, sempre f**a de fora.
E não é pouco, isso toca direto no ego, na fantasia de suficiência, nessa vontade quase infantil de ocupar todos os lugares.

Queremos ser tudo porque ser tudo nos pouparia da falta.
Se eu sou tudo o que você precisa, então não há risco, não há ameaça, não há concorrência, não há perda.
Mas o amor não se organiza assim.
O desejo nasce justamente onde não damos conta.
Onde o outro não nos completa, não nos encerra, não nos resolve.

É ali que a relação respira.
Quando tentamos ser a parte que faltava, muitas vezes deixamos de ser quem somos.
Viramos função, remendo, promessa de completude.
E isso cansa, adoece, empobrece o encontro.
Aceitar que não somos tudo é aceitar que o outro é inteiro antes de nós.

Que ele tem desejos, histórias, faltas e excessos que não nos pertencem.
E que o vínculo não se sustenta pela fusão, mas pela possibilidade de encontro entre dois incompletos.
Talvez o mais amoroso não seja ser tudo.
Mas ser presença possível.

Ser quem f**a, mesmo sabendo que algo sempre faltará e que está tudo bem que falte.

Quem nunca saiu de uma sessão de terapia com o peito apertado, a testa quente, e aquela certeza meio infantil e meio fur...
26/01/2026

Quem nunca saiu de uma sessão de terapia com o peito apertado, a testa quente, e aquela certeza meio infantil e meio furiosa: “não volto mais”?

Às vezes não é raiva exatamente. É um incômodo profundo. Algo foi tocado sem aviso, deslocado do lugar conhecido. O terapeuta não disse o que esperávamos, não acolheu como imaginávamos, fez uma pergunta que soou dura demais ou simplesmente ficou em silêncio quando queríamos colo. E aí dói. Porque a terapia não serve para confirmar nossas defesas, ela existe justamente para tensioná-las.

No dia da sessão, tudo parece excessivo. As palavras ecoam errado, a interpretação soa injusta, a sensação é de ter sido mal compreendida. Dá vontade de fechar a porta, proteger o que foi exposto, interromper o processo. Mas o curioso é que a análise não termina quando a sessão acaba.

No decorrer da semana, algo começa a se assentar. Não porque a dor desapareceu, mas porque ela ganhou contorno. Aquilo que irritou passa a fazer sentido, não como verdade absoluta, mas como fenda. Um ponto de trabalho. A raiva, então, se revela: não era contra o terapeuta, mas contra o que foi visto em nós e que já estava lá antes.

A terapia, muitas vezes, funciona assim: primeiro desorganiza, depois elabora. Primeiro fere o narcisismo, depois amplia o olhar. O desejo de não voltar pode ser, paradoxalmente, sinal de que algo importante foi alcançado. Porque onde não há afeto, não há trabalho. Onde nada se move, nada se transforma.

Voltar não é sobre concordar com tudo. É sobre sustentar o desconforto tempo suficiente para escutar o que ele quer dizer. E, quando a raiva encontra palavras, ela deixa de ser ruptura e pode virar caminho.
Nem toda boa sessão é confortável. Algumas são necessárias justamente porque doem.

Como eu me relaciono comigo mesma e com os outros quase sempre foi aprendido a partir das nossas dinâmicas familiares.É ...
11/01/2026

Como eu me relaciono comigo mesma e com os outros quase sempre foi aprendido a partir das nossas dinâmicas familiares.

É ali, nos primeiros vínculos, que aprendemos, muitas vezes sem palavras, o que é amor, conflito, silêncio, cuidado e abandono.

Aprendemos se o afeto vem junto com medo, se o amor precisa ser merecido, se o desejo pode ser expresso ou deve ser contido. Aprendemos a nos calar para não perder, a agradar para sermos vistas, a nos defender para não doer. A família, mais do que um lugar, é um roteiro: ela nos ensina como amar, como pedir, como faltar e como suportar a falta.

É por isso que, na vida adulta, tantas relações parecem repetições disfarçadas. Escolhemos o que nos é familiar, mesmo quando dói. Confundimos intensidade com amor, controle com cuidado, distância com autonomia. Não porque queremos sofrer, mas porque é esse o idioma afetivo que aprendemos a falar.

Mas aquilo que foi aprendido também pode ser interrogado. Olhar para as próprias dinâmicas familiares não é para culpar, é para compreender. É nesse movimento que algo se desloca, quando reconhecemos de onde vem nossos modos de amar, ganhamos a chance de escolher diferente.

Relacionar-se consigo mesma passa, então, por reaprender. Aprender a se tratar com a delicadeza que talvez faltou. Aprender a sustentar limites, a tolerar frustrações, a desejar sem culpa. E, pouco a pouco, construir vínculos que não sejam apenas repetições do passado, mas possibilidades de algo novo.

Nem tudo que nos constituiu precisa nos determinar. Algumas heranças podem ser transformadas em escolha. Outras, em silêncio finalmente interrompido.

A terapia não é um lugar cômodo.Nem para o analista, nem para o analisando.Para quem fala, não é espaço de repouso ou ac...
09/01/2026

A terapia não é um lugar cômodo.
Nem para o analista, nem para o analisando.

Para quem fala, não é espaço de repouso ou acomodação.
É travessia.
É quando o chão conhecido falha e a palavra precisa inventar outro caminho.
Ali não se chega pronto, chega-se em falta
e é justamente essa falta que move o trabalho.

Para quem escuta, tampouco há conforto.
O analista não ocupa o lugar do saber absoluto,
não oferece respostas prontas nem garantias.
Sustenta um não-lugar:
escuta sem tamponar, presença sem invadir,
uma posição ética que exige constante deslocamento de si.

A terapia acontece no entre.
Entre o que é dito e o que escapa,
entre o desejo de compreender e a impossibilidade de dizer tudo,
entre dois sujeitos que não se encontram pela completude,
mas pelo que falta a ambos.

Talvez por isso a terapia não seja um lugar cômodo,
mas um espaço de movimento.
Onde algo sempre se desloca,
e de onde ninguém sai exatamente igual a como entrou.

Foi um ano difícil.Daqueles que não se atravessam ilesos. Um ano de desafios incontáveis, em que a sensação era a de ter...
23/12/2025

Foi um ano difícil.
Daqueles que não se atravessam ilesos. Um ano de desafios incontáveis, em que a sensação era a de ter vivido muitas vidas dentro de apenas 365 dias.

Essa intensidade não ficou restrita a mim. Eu a vi refletida nas pessoas que atendi, nos amigos, na família. Como se todos estivéssemos, à nossa maneira, tentando sustentar o próprio fôlego enquanto o mundo exigia mais do que parecia possível oferecer.

Houve momentos em que duvidei que chegaria a dezembro intacta. E talvez não tenha chegado mesmo, ao menos não da forma como comecei. Porque viver muitas vidas também é aceitar que algo sempre se transforma, se quebra, se refaz.

Chego a dezembro com a certeza da caixinha de surpresas que é a vida. Da força do inesperado, que nos pega desprevenidos e, às vezes, nos salva. Da delicadeza com que o amor bate à porta quando já não o aguardávamos. De como a esperança pode florescer num piscar de olhos, mesmo depois de longas estações de aridez.

Me emociono ao acompanhar a trajetória das pessoas que confiaram a mim suas lágrimas, risadas, tristezas e alegrias. Há algo de profundamente humano e sagrado, em ser escolhida como testemunha desses processos. Em sustentar silêncios, acolher dores, celebrar conquistas que nem sempre fazem barulho, mas transformam tudo.
Neste último mês do ano, temos colhido frutos deliciosos. Frutos de coragem, de permanência, de quem não desistiu de si apesar do cansaço. Frutos que não apagam as dificuldades vividas, mas dão sentido a elas.

Talvez seja isso que dezembro nos ensine: não saímos intactos, mas seguimos vivos. E isso, por si só, já é uma grande vitória.

Freud, em “A transitoriedade”, nos lembra de algo que insistimos em esquecer: o fato de tudo passar não retira o valor d...
18/12/2025

Freud, em “A transitoriedade”, nos lembra de algo que insistimos em esquecer: o fato de tudo passar não retira o valor da experiência, ao contrário, é justamente isso que a intensif**a. Ainda assim, quantas vezes abrimos mão de viver as belezas do agora por medo daquilo que está por vir?

Há um receio silencioso de se implicar com o presente. Amar sabendo que pode acabar, alegrar-se sabendo que a alegria não é eterna, entregar-se a um instante que não promete garantias. Diante da transitoriedade, muitos preferem a contenção afetiva, como se não sentir fosse uma forma de proteção. Mas esse suposto abrigo cobra um preço alto: a perda da experiência viva.

Freud observa que, para alguns, a consciência da finitude produz um empobrecimento do prazer. Se tudo vai acabar, para que investir? Essa lógica, porém, revela mais sobre o medo da perda do que sobre a fragilidade da beleza. O luto antecipado rouba do presente aquilo que ele tem de mais potente: a possibilidade de ser vivido por inteiro.

Talvez o que nos assuste não seja o fim em si, mas o quanto podemos nos afetar no caminho. Viver o agora exige coragem, coragem de sentir, de se vincular, de se deixar atravessar. Exige aceitar que a vida não se sustenta em promessas de permanência, mas em encontros que acontecem apesar da impermanência.

A transitoriedade não diminui o valor da vida; ela a torna urgente. O agora não pede garantias, pede presença. E talvez seja justamente aí que reside sua beleza mais profunda: naquilo que, mesmo sabendo que passa, ainda assim escolhemos viver.

Quando esperamos certeza absoluta sobre o amor, não estamos falando de amor, estamos falando de medo. Porque o amor, na ...
09/12/2025

Quando esperamos certeza absoluta sobre o amor, não estamos falando de amor, estamos falando de medo.

Porque o amor, na sua forma mais viva, nunca chega embalado em garantias. Ele não assina contrato, não promete eternidade, não se curva às nossas tentativas de controlar o que é, por natureza, movimento. O amor é encontro, é risco, é troca e tudo isso exige uma dose de vulnerabilidade que assusta.

A busca pela certeza absoluta é, muitas vezes, o nosso jeito de tentar neutralizar o medo de perder, de sofrer, de errar de novo. É como se disséssemos: “Eu entro, mas só se você me prometer que nada vai doer”. Só que sentimentos não funcionam assim, relações não funcionam assim e a vida, principalmente, não funciona assim.

O medo é legítimo. Ele protege, ele sinaliza, ele tenta nos manter inteiros. Mas quando ele passa a ditar as regras, ele paralisa. Ele transforma o amor, que deveria ser experiência, em projeto de controle. E ninguém ama de verdade quando está ocupada demais tentando prever o futuro.

Talvez a pergunta não seja “como ter certeza?”, mas “como posso me permitir sentir mesmo sem certezas?”. Porque amar não é saber o que vai acontecer. Amar é estar presente no que já está acontecendo. É sustentar o desconforto do imprevisível sem fugir de si mesmo. É confiar no que se constrói no encontro, mesmo sabendo que tudo pode mudar.

O amor não é feito de certezas. As certezas também não são garantias de não ter medo. O amor nos solicita arriscar no outro e ver onde as possibilidades nos leva.

É no encontro com o outro que algo em nós se ilumina.Não porque precisamos dessa pessoa para existir, mas porque a prese...
01/12/2025

É no encontro com o outro que algo em nós se ilumina.
Não porque precisamos dessa pessoa para existir, mas porque a presença dela funciona como um espelho sensível, daqueles que não só refletem, mas revelam.

Quando encontramos alguém com quem a conexão é verdadeira, o corpo desacelera. A alma respira. A palavra ganha coragem para sair inteira. Surge uma intimidade que não é feita só de toque, mas de confiança. Um tipo de segurança que não aprisiona, mas que abre portas internas que, sozinhas, talvez f**ariam fechadas por medo, vergonha ou hábito.

Nesse espaço de encontro, podemos nos explorar sem o pavor de despencar no próprio abismo.
O outro vira uma borda possível, um chão provisório, uma mão que nos lembra que atravessar a si mesma não precisa ser sinônimo de solidão.

E é ali nesse entre, entre o que sou e o que o outro desperta, que descobrimos nuances nossas que nem sabíamos nomear.
O que gostamos, o que desejamos, o que recusamos.
O que queremos continuar sendo e o que, com esse novo olhar sobre nós, já não faz mais sentido carregar.

O encontro verdadeiro não nos define, mas nos expande.
É um convite para existir com mais profundidade, com mais honestidade, com mais liberdade.

Quando você abre mão do que sente, vive uma vida pela metade, uma vida que até anda, mas não pulsa. É como tentar respir...
24/11/2025

Quando você abre mão do que sente, vive uma vida pela metade, uma vida que até anda, mas não pulsa. É como tentar respirar com um pulmão só, o ar entra, mas não sustenta. Você vai se acostumando a existir em modo econômico, podando aqui, silenciando ali, até que um dia percebe que nem reconhece mais o próprio tom de voz.

Quando você deixa seus sonhos de lado, vive uma vida em desvio. Você segue o caminho, mas não o seu. É como caminhar com sapatos que não foram feitos para os seus pés, pode até avançar, mas cada passo dói um pouco. E essa dor contínua, que você tenta ignorar, vai lhe ensinando a se contentar com menos do que merece, como se desejar fosse um exagero, uma ousadia grande demais para ser permitida.

Quando o desejo do outro se sobrepõe ao seu, você vive uma vida que não te reconhece. Uma vida que te pede para caber num molde que não tem o seu formato. Você se diminui para não incomodar, se adapta para não perder, se sacrif**a para não ser vista como egoísta. Só que, nesse movimento silencioso, é você quem vai se perdendo. Vai esquecendo o gosto do próprio querer, como quem esquece uma palavra na ponta da língua, sabe que existe, mas não consegue acessar.

No fundo, viver assim é estar sempre um pouco fora de si.
É existir num corpo que cumpre funções, mas não se autoriza a sentir, desejar, escolher.

E a grande pergunta que f**a é...
Que vida você pode criar quando decide voltar para si?
Quando dá nome ao que sente, quando honra o que sonha, quando coloca o seu desejo na mesa com a mesma importância que sempre deu ao do outro?

Talvez aí comece, enfim, a sua vida inteira, aquela que pulsa em você e por você.

Você tem se arriscado a existir?Às vezes, a gente se agarra à fantasia de que existe um caminho certo, uma rota limpa, s...
19/11/2025

Você tem se arriscado a existir?

Às vezes, a gente se agarra à fantasia de que existe um caminho certo, uma rota limpa, sem curvas, sem quedas, sem esbarrar nas próprias dores. Acreditamos que, se fizermos tudo “do jeito certo”, a vida nos poupará de desconfortos, de perdas, de frustrações. Mas essa é uma ilusão que mais aprisiona do que protege.

O medo, silencioso, começa a guiar nossos passos primeiro com cuidado, depois com controle, até que percebemos que já não caminhamos apenas evitamos. Evitamos tentar, evitamos sentir, evitamos nos expor. A gente se convence de que não arriscar é o mesmo que se preservar, quando na verdade é só uma forma sofisticada de não viver.

Existir é sempre um risco de gostar, de perder, de se frustrar, de ser surpreendida. A vida não promete estabilidade, mas oferece encontro e é no encontro com o outro, com o mundo, com aquilo que nos move que algo em nós se expande.

Arriscar-se a existir é escolher, apesar do medo, colocar o corpo na vida. É aceitar que o desconforto faz parte do caminho e que ele não nos diminui, ele nos atravessa, nos reorganiza, nos faz crescer.

Talvez o “caminho certo” não exista. Talvez o que exista seja apenas o seu caminho, com seus tropeços, seus espantos, suas tentativas. E, sobretudo, com a coragem delicada de viver aquilo que só pode ser descoberto quando você se permite existir de verdade.

Endereço

Rua Dom Pedro II, 1382
Piracicaba, SP

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