Psicóloga Flávia Procópio

Psicóloga Flávia Procópio Atendimento psicológico de crianças, adolescentes e adultos na abordagem psicanalítica.

Foi um ano difícil.Daqueles que não se atravessam ilesos. Um ano de desafios incontáveis, em que a sensação era a de ter...
23/12/2025

Foi um ano difícil.
Daqueles que não se atravessam ilesos. Um ano de desafios incontáveis, em que a sensação era a de ter vivido muitas vidas dentro de apenas 365 dias.

Essa intensidade não ficou restrita a mim. Eu a vi refletida nas pessoas que atendi, nos amigos, na família. Como se todos estivéssemos, à nossa maneira, tentando sustentar o próprio fôlego enquanto o mundo exigia mais do que parecia possível oferecer.

Houve momentos em que duvidei que chegaria a dezembro intacta. E talvez não tenha chegado mesmo, ao menos não da forma como comecei. Porque viver muitas vidas também é aceitar que algo sempre se transforma, se quebra, se refaz.

Chego a dezembro com a certeza da caixinha de surpresas que é a vida. Da força do inesperado, que nos pega desprevenidos e, às vezes, nos salva. Da delicadeza com que o amor bate à porta quando já não o aguardávamos. De como a esperança pode florescer num piscar de olhos, mesmo depois de longas estações de aridez.

Me emociono ao acompanhar a trajetória das pessoas que confiaram a mim suas lágrimas, risadas, tristezas e alegrias. Há algo de profundamente humano e sagrado, em ser escolhida como testemunha desses processos. Em sustentar silêncios, acolher dores, celebrar conquistas que nem sempre fazem barulho, mas transformam tudo.
Neste último mês do ano, temos colhido frutos deliciosos. Frutos de coragem, de permanência, de quem não desistiu de si apesar do cansaço. Frutos que não apagam as dificuldades vividas, mas dão sentido a elas.

Talvez seja isso que dezembro nos ensine: não saímos intactos, mas seguimos vivos. E isso, por si só, já é uma grande vitória.

Freud, em “A transitoriedade”, nos lembra de algo que insistimos em esquecer: o fato de tudo passar não retira o valor d...
18/12/2025

Freud, em “A transitoriedade”, nos lembra de algo que insistimos em esquecer: o fato de tudo passar não retira o valor da experiência, ao contrário, é justamente isso que a intensif**a. Ainda assim, quantas vezes abrimos mão de viver as belezas do agora por medo daquilo que está por vir?

Há um receio silencioso de se implicar com o presente. Amar sabendo que pode acabar, alegrar-se sabendo que a alegria não é eterna, entregar-se a um instante que não promete garantias. Diante da transitoriedade, muitos preferem a contenção afetiva, como se não sentir fosse uma forma de proteção. Mas esse suposto abrigo cobra um preço alto: a perda da experiência viva.

Freud observa que, para alguns, a consciência da finitude produz um empobrecimento do prazer. Se tudo vai acabar, para que investir? Essa lógica, porém, revela mais sobre o medo da perda do que sobre a fragilidade da beleza. O luto antecipado rouba do presente aquilo que ele tem de mais potente: a possibilidade de ser vivido por inteiro.

Talvez o que nos assuste não seja o fim em si, mas o quanto podemos nos afetar no caminho. Viver o agora exige coragem, coragem de sentir, de se vincular, de se deixar atravessar. Exige aceitar que a vida não se sustenta em promessas de permanência, mas em encontros que acontecem apesar da impermanência.

A transitoriedade não diminui o valor da vida; ela a torna urgente. O agora não pede garantias, pede presença. E talvez seja justamente aí que reside sua beleza mais profunda: naquilo que, mesmo sabendo que passa, ainda assim escolhemos viver.

Quando esperamos certeza absoluta sobre o amor, não estamos falando de amor, estamos falando de medo. Porque o amor, na ...
09/12/2025

Quando esperamos certeza absoluta sobre o amor, não estamos falando de amor, estamos falando de medo.

Porque o amor, na sua forma mais viva, nunca chega embalado em garantias. Ele não assina contrato, não promete eternidade, não se curva às nossas tentativas de controlar o que é, por natureza, movimento. O amor é encontro, é risco, é troca e tudo isso exige uma dose de vulnerabilidade que assusta.

A busca pela certeza absoluta é, muitas vezes, o nosso jeito de tentar neutralizar o medo de perder, de sofrer, de errar de novo. É como se disséssemos: “Eu entro, mas só se você me prometer que nada vai doer”. Só que sentimentos não funcionam assim, relações não funcionam assim e a vida, principalmente, não funciona assim.

O medo é legítimo. Ele protege, ele sinaliza, ele tenta nos manter inteiros. Mas quando ele passa a ditar as regras, ele paralisa. Ele transforma o amor, que deveria ser experiência, em projeto de controle. E ninguém ama de verdade quando está ocupada demais tentando prever o futuro.

Talvez a pergunta não seja “como ter certeza?”, mas “como posso me permitir sentir mesmo sem certezas?”. Porque amar não é saber o que vai acontecer. Amar é estar presente no que já está acontecendo. É sustentar o desconforto do imprevisível sem fugir de si mesmo. É confiar no que se constrói no encontro, mesmo sabendo que tudo pode mudar.

O amor não é feito de certezas. As certezas também não são garantias de não ter medo. O amor nos solicita arriscar no outro e ver onde as possibilidades nos leva.

É no encontro com o outro que algo em nós se ilumina.Não porque precisamos dessa pessoa para existir, mas porque a prese...
01/12/2025

É no encontro com o outro que algo em nós se ilumina.
Não porque precisamos dessa pessoa para existir, mas porque a presença dela funciona como um espelho sensível, daqueles que não só refletem, mas revelam.

Quando encontramos alguém com quem a conexão é verdadeira, o corpo desacelera. A alma respira. A palavra ganha coragem para sair inteira. Surge uma intimidade que não é feita só de toque, mas de confiança. Um tipo de segurança que não aprisiona, mas que abre portas internas que, sozinhas, talvez f**ariam fechadas por medo, vergonha ou hábito.

Nesse espaço de encontro, podemos nos explorar sem o pavor de despencar no próprio abismo.
O outro vira uma borda possível, um chão provisório, uma mão que nos lembra que atravessar a si mesma não precisa ser sinônimo de solidão.

E é ali nesse entre, entre o que sou e o que o outro desperta, que descobrimos nuances nossas que nem sabíamos nomear.
O que gostamos, o que desejamos, o que recusamos.
O que queremos continuar sendo e o que, com esse novo olhar sobre nós, já não faz mais sentido carregar.

O encontro verdadeiro não nos define, mas nos expande.
É um convite para existir com mais profundidade, com mais honestidade, com mais liberdade.

Quando você abre mão do que sente, vive uma vida pela metade, uma vida que até anda, mas não pulsa. É como tentar respir...
24/11/2025

Quando você abre mão do que sente, vive uma vida pela metade, uma vida que até anda, mas não pulsa. É como tentar respirar com um pulmão só, o ar entra, mas não sustenta. Você vai se acostumando a existir em modo econômico, podando aqui, silenciando ali, até que um dia percebe que nem reconhece mais o próprio tom de voz.

Quando você deixa seus sonhos de lado, vive uma vida em desvio. Você segue o caminho, mas não o seu. É como caminhar com sapatos que não foram feitos para os seus pés, pode até avançar, mas cada passo dói um pouco. E essa dor contínua, que você tenta ignorar, vai lhe ensinando a se contentar com menos do que merece, como se desejar fosse um exagero, uma ousadia grande demais para ser permitida.

Quando o desejo do outro se sobrepõe ao seu, você vive uma vida que não te reconhece. Uma vida que te pede para caber num molde que não tem o seu formato. Você se diminui para não incomodar, se adapta para não perder, se sacrif**a para não ser vista como egoísta. Só que, nesse movimento silencioso, é você quem vai se perdendo. Vai esquecendo o gosto do próprio querer, como quem esquece uma palavra na ponta da língua, sabe que existe, mas não consegue acessar.

No fundo, viver assim é estar sempre um pouco fora de si.
É existir num corpo que cumpre funções, mas não se autoriza a sentir, desejar, escolher.

E a grande pergunta que f**a é...
Que vida você pode criar quando decide voltar para si?
Quando dá nome ao que sente, quando honra o que sonha, quando coloca o seu desejo na mesa com a mesma importância que sempre deu ao do outro?

Talvez aí comece, enfim, a sua vida inteira, aquela que pulsa em você e por você.

Você tem se arriscado a existir?Às vezes, a gente se agarra à fantasia de que existe um caminho certo, uma rota limpa, s...
19/11/2025

Você tem se arriscado a existir?

Às vezes, a gente se agarra à fantasia de que existe um caminho certo, uma rota limpa, sem curvas, sem quedas, sem esbarrar nas próprias dores. Acreditamos que, se fizermos tudo “do jeito certo”, a vida nos poupará de desconfortos, de perdas, de frustrações. Mas essa é uma ilusão que mais aprisiona do que protege.

O medo, silencioso, começa a guiar nossos passos primeiro com cuidado, depois com controle, até que percebemos que já não caminhamos apenas evitamos. Evitamos tentar, evitamos sentir, evitamos nos expor. A gente se convence de que não arriscar é o mesmo que se preservar, quando na verdade é só uma forma sofisticada de não viver.

Existir é sempre um risco de gostar, de perder, de se frustrar, de ser surpreendida. A vida não promete estabilidade, mas oferece encontro e é no encontro com o outro, com o mundo, com aquilo que nos move que algo em nós se expande.

Arriscar-se a existir é escolher, apesar do medo, colocar o corpo na vida. É aceitar que o desconforto faz parte do caminho e que ele não nos diminui, ele nos atravessa, nos reorganiza, nos faz crescer.

Talvez o “caminho certo” não exista. Talvez o que exista seja apenas o seu caminho, com seus tropeços, seus espantos, suas tentativas. E, sobretudo, com a coragem delicada de viver aquilo que só pode ser descoberto quando você se permite existir de verdade.

Nem tudo que dói precisa ser consertado.Há dores que pedem silêncio, outras pedem tempo. E há aquelas que só querem ser ...
05/11/2025

Nem tudo que dói precisa ser consertado.
Há dores que pedem silêncio, outras pedem tempo. E há aquelas que só querem ser escutadas
sem pressa, sem conselho, sem remédio imediato.

Vivemos cercados por uma urgência de resolver tudo. Quando algo dói, logo vem a pergunta: “Como faço pra parar de sentir isso?”
Mas sentir também é parte do viver. A dor, às vezes, é o modo que o corpo e a alma encontram de dizer: “tem algo aqui que precisa de atenção.”

Escutar a dor não é se render a ela, é reconhecê-la. É se permitir habitar o desconforto o suficiente pra entender o que ele quer mostrar.
Nem toda ferida cicatriza rápido. Algumas precisam ser olhadas, nomeadas, choradas.

A escuta, quando verdadeira, tem o poder de transformar o que parecia insuportável em algo possível de ser vivido.
Talvez tarefa seja, antes de tudo, aprender a escutar o que dói, sem tentar silenciar.

A vida dá trabalho porque viver de verdade exige presença.Exige sustentar as escolhas que fazemos, mesmo quando elas doe...
24/10/2025

A vida dá trabalho porque viver de verdade exige presença.
Exige sustentar as escolhas que fazemos, mesmo quando elas doem.
A gente costuma acreditar que o que desejamos virá fácil, como se o querer fosse o bastante para garantir o caminho aberto, mas não é. O desejo aponta uma direção, não elimina os obstáculos.

Queremos o amor, mas sem lidar com as vulnerabilidades que ele escancara.
Queremos liberdade, mas sem o peso da responsabilidade que ela carrega.
Queremos mudança, mas sem o desconforto que ela provoca.

A verdade é que tudo o que tem valor cobra um preço, o preço da coerência, da paciência, do atravessamento.
E talvez o maior trabalho da vida seja bancar o que se quer.
Assumir o risco de se frustrar, de perder, de se reinventar, sem desistir do que faz sentido.

Não existe vida inteira sem esforço, sem dor, sem queda.
Mas existe beleza em sustentar o que se escolhe.
Existe força em seguir mesmo cansado.
E existe verdade em entender que viver dá trabalho!

Tem gente que quebra a gentesem fazer barulho,num gesto leve,num descuido pequeno.Quebra com o olhar que desvia,com a pa...
08/10/2025

Tem gente que quebra a gente
sem fazer barulho,
num gesto leve,
num descuido pequeno.

Quebra com o olhar que desvia,
com a palavra que não vem,
com o silêncio que pesa.

Tem gente que quebra sabendo,
testando o quanto a gente aguenta,
como quem br**ca com o limite
do que ainda é amor
ou já é ferida.

E a gente se culpa
por ter se deixado abrir,
por ter acreditado,
por ter sido inteiro demais
num mundo que ama as metades.

Mas o tempo, generoso,
ensina a colar os pedaços
sem pressa, sem máscara,
a reconhecer quem chega pra somar
e quem só espalha cacos.

Porque há dores que ensinam
e amores que curam.
E há em cada recomeço
um lembrete silencioso:
ser inteiro é bonito,
mas saber se proteger
também é.

A gente não adoece apenas de tristeza.Adoece também quando se acostuma a viver no automático, cumprindo tarefas, atraves...
15/09/2025

A gente não adoece apenas de tristeza.
Adoece também quando se acostuma a viver no automático, cumprindo tarefas, atravessando os dias como quem marca presença na própria vida sem, de fato, habitá-la.

Quando os dias viram apenas listas de tarefas, quando o corpo só se move pelo que é necessário, quando a vida se resume ao que é urgente e obrigatório, a vida vai deixando de fazer sentido.

O prazer, seja sexual, criativo ou simplesmente cotidiano, não é luxo. É necessidade vital. É o que traz signif**ado pra os dias. É o intervalo em que deixamos de ser apenas sujeitos de dever e nos tornamos sujeitos de desejo.

Viver só do que é obrigatório é adoecedor.
Cuidar-se, então, não é apenas evitar a dor, mas garantir espaços de encontro com aquilo que nos move, que nos excita, que nos encanta. O prazer não é um adorno da vida, é parte essencial de mantê-la pulsando.

Qual foi a última que você se permitir ao prazer sem se sentir culpado por isso?

Endereço

Rua Dom Pedro II, 1382
Piracicaba, SP

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