06/01/2026
Desculpas não consertam o que foi quebrado.
Um pedido de desculpas pode soar bonito, necessário até. Mas ele não apaga o fato. Não desfaz a traição, não desmente a mentira, não recolhe a manipulação nem volta ao “combinado” que foi rompido. Na psicanálise, o ato tem peso. O inconsciente se expressa muito mais pelo que se faz do que pelo que se diz.
Quem trai, mente ou manipula e depois se apoia apenas no “desculpa” costuma estar tentando aliviar a própria culpa — não reparar o dano. O pedido de desculpas, nesses casos, funciona como um anestésico moral: alivia quem errou, mas não cura quem foi ferido. A xícara continua trincada. Pode até voltar a segurar o café, mas nunca mais será a mesma.
Perdoar é um processo interno de quem foi ferido. Tem a ver com libertar-se do ressentimento, não com fingir que nada aconteceu. Perdão não é negação do trauma, nem obrigação moral imposta por quem errou. Perdoar não é restaurar automaticamente a confiança. Confiança se reconstrói com tempo, coerência e mudança real de comportamento — quando há mudança.
Na clínica, vemos com frequência: quem repete o erro e vive pedindo desculpas não está em arrependimento profundo, está em repetição. E repetição, para a psicanálise, é sinal de algo não elaborado. Enquanto não há responsabilização verdadeira, o “desculpa” vira apenas mais uma estratégia.
Portanto, cuidado com pedidos de desculpas vazios. Eles não reparam, não restauram e não transformam. O que transforma é consciência, limite e ação diferente. O resto é café sendo servido numa xícara quebrada — e alguém sempre vai se queimar.