09/12/2025
Carta a quem inventou as despedidas
De todas as criações humanas, a escrita, o fogo, a roda, os grandes afetos, talvez nenhuma tenha sido tão mal pensada quanto as despedidas.
Você, que as inventou, poderia ter nos avisado que mexeria tão profundamente no lugar onde a pele encontra a alma.
Poderia ter colocado um manual, uma bula explicando os efeitos colaterais: taquicardia emocional, silêncio na boca do estômago, um tipo estranho de lucidez que só aparece quando algo está indo embora.
Despedidas não são só atos. São cortes silenciosos. São pequenos fins que disputam espaço com o desejo de continuar.
São portas que fecham e deixam, do lado de dentro, tudo o que ainda queríamos viver do lado de fora.
Você pensou nisso? Ou achou que seríamos fortes o suficiente? Achou que entenderíamos que o fim também é um jeito de começar, mesmo quando parece injusto, abrupto, duro demais?
Pensou que aceitaríamos a lógica de que tudo o que toca o coração carrega um prazo invisível? A verdade é que as despedidas revelam mais sobre nós do que sobre o que se vai.
Elas nos obrigam a olhar para os nossos excessos de apego, para os medos que escondemos, para a fantasia de que algumas coisas poderiam durar para sempre.
E talvez você tenha inventado as despedidas justamente para isso, para que a gente não vivesse eternamente anestesiado pela ideia de permanência.
Ainda assim, preciso dizer que é uma invenção cruel.
Cruel e necessária. Cruel e sábia. Cruel e, paradoxalmente, generosa.
No ato de soltar, aprendemos a honrar o que seguramos. No ato de encerrar, descobrimos que há capítulos que só começam quando outros têm coragem de acabar.
A você que inventou as despedidas, deixo meu protesto e meu agradecimento. Meu protesto por ter criado uma d0r tão funda.
Meu agradecimento por ter feito da dor um lugar de passagem, não de morada.
Na próxima invenção, faça-se acompanhar de um pouco mais de delicadeza.
Que a sensação de fim não pese tanto. Que a partida não machuque tanto o peito.
Que a lembrança que f**a seja maior do que o vazio que sobra. Até lá, seguimos colecionando encontros, enfrentando partidas e tentando, cada vez mais, viver de um jeito que cada momento valha a pena.
Bruno Sampaio