06/12/2020
Terceiro sinal
por Luiz Mauricio Azevedo
Quando cheguei a Porto Alegre, no verão de 1993, três coisas me fascinavam: a livraria do Globo, o Carrefour e a locadora Alta Games. Na livraria do Globo, seguindo as ordens generosas da minha tia Sonia, eu podia pegar qualquer livro que a minha imaginação pedisse. Eu nem gostava muito de ler, mas é que, às vezes, quando chovia, faltava luz. E sem luz não tinha videogame. Eu sentia o prédio tremer. Pensava no desabamento, pensava no concreto esmagando cada parte do corpo do filho da dona Ilma. Imaginava a Paola Vernareccia conversando com os populares. Familiares desesperados pediriam justiça. Alceu Collares decretaria luto oficial por três dias. A única coisa que conseguia romper essa espiral de delírio era a leitura. Lendo eu tinha medo do fantasma do Tio William, eu ia para o Peru, com as meninas do vôlei, eu perseguia o vampiro com o Dudu.
Quando a luz retornava, a SEGA me tinha de volta. Combustível não faltava: a Alta Games era uma espécie de anti-biblioteca, cheia de cartuchos para o meu mega-drive e um cheiro de politileno que, na falta de uma cultura proustiana adequada, eu chamarei de maravilhoso. Do outro lado da cidade, bem distante, ficava o Carrefour. Meu fascínio por esse hipermercado tinha uma razão concreta e mesquinha: patins. Eu não sei quem determinou, mas naquele ano os funcionários do local usavam patins para se locomover. Em Rio Grande, onde cresci, naquela época patins eram instrumentos recreativos para se usar em praça. Vê-los em um ambiente de trabalho confirmava uma suspeita: Porto Alegre era diferente de tudo o que eu conhecia. Aqui o labor – vamos fingir que eu conhecia essa palavra aos doze anos – andava lado a lado com a diversão.
Ontem, nesse mesmo supermercado, João Alberto Freitas, um homem negro como eu, que tinha quarenta anos como eu, foi espancado e morto por seguranças brancos em uma sessão de tortura que se espalhou por todas as telas do mundo, escancarando mais uma vez a miséria da vida social brasileira.
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