01/06/2026
Ontem a coloproctologia brasileira perdeu a sua maior referência.
Filha de imigrantes libaneses, Angelita Habr-Gama contrariou o pai — que a queria professora — para cursar medicina. Foi a primeira de muitas vezes em que ouviria “não” e seguiria mesmo assim.
Construiu a carreira numa época em que as mulheres eram minoria absoluta na medicina e raríssimas na cirurgia, abrindo portas que estavam fechadas: a primeira mulher residente de cirurgia do Hospital das Clínicas da USP, a primeira professora titular de uma especialidade cirúrgica da Faculdade de Medicina da USP — onde criou a disciplina de coloproctologia e ajudou a consolidá-la como especialidade reconhecida no Brasil. Quando foi se especializar no St. Mark’s, em Londres, em 1961, ouviu que era um hospital de homens; insistiu até ser aceita e, ao chegar, trocava de roupa no vestiário das enfermeiras, porque não havia vestiário para médicas mulheres.
Mais tarde, ousou desafiar um dos maiores dogmas da cirurgia: a ideia de que todo câncer de reto exigia bisturi. Quando propôs que parte dos pacientes poderia ser tratada sem operar — o hoje consagrado protocolo “Watch and Wait” —, foi chamada de absurda. Não recuou. E, mais uma vez, o tempo lhe deu razão: décadas depois, sua ideia mudou diretrizes no mundo inteiro e poupou milhares de pessoas de cirurgias mutiladoras.
Ela dizia, com humor, que morreria “sob protestos”. Operou, pesquisou e ensinou até o fim, com mais de 90 anos.
Deixa para trás gerações de médicos que formou, milhares de pacientes que tratou e uma especialidade inteira mais forte do que a encontrou — construída com a coragem e a obstinação que marcaram a vida dela.
Não tivemos o privilégio de conviver com ela, mas seguimos, com gratidão, o caminho que ela abriu.
Obrigada por tudo, professora. 🤍