19/12/2025
Ler é preciso. É fundamental, já que, a cada momento, nos perguntamos sobre a consistência daquilo que está estabelecido, daquilo que parece estar dado, dado de antemão. Espanta alguém a ideia de que há uma leitura possível da Ciência que a lê como Religião? Ou então de que há um trabalho possível com o que vem da Religião, da Tradição, que produz formas tão interessantes de leitura, articulando novas conjecturas (ao invés de santas verdades), trabalho esse que mereceria muitos adjetivos e advérbios, porém, com pouca probabilidade, se diria que ele se faz “religiosamente” ou “nas trevas da tradição”?
O quanto a Ciência dá conta - sozinha, prescindindo de qualquer tradição -, de ensinar alguém a ler? O quanto a Ciência, ao fazer tábula rasa das tradições, não acabou, ao mesmo tempo, repetindo de alguma forma o gesto de Abraão? Quebrou todos os ídolos e, em seguida, pôs-se no pedestal de adoração...
A psicanálise só pode existir como lugar de endereçamento do sofrimento humano em um universo marcado pelo advento de Ciência, em que existe, insiste e persiste um “Por quê?”, o da pergunta “Por que isto acontece comigo?”, e apenas nos casos em que não se encontra imediatamente uma resposta qualquer no senso comum.
Porém a Ciência, quando ocorre de ela desprezar a Tradição, coloca ao mesmo tempo um problema para a Psicanálise. A Psicanálise poderia então f**ar reduzida a uma superficialidade, um blá-blá-blá, enquanto que a Ciência, com seus métodos e medicamentos, iria direto à raiz do problema. Aí a Psicanálise precisaria responder: “Como chegar à raiz do problema sem abordar o problema das raízes?”.
A psicanálise, ao trabalhar com uma condição radical da pergunta, devolve à Ciência sua verdade. O saber é uma conjectura, que pode funcionar bem, ou até muito bem, porém isto não o torna a derradeira verdade. E se o sujeito tem raízes em uma Tradição, não seria navegando em suas águas (as da Tradição) que ele poderia aprender formas interessantes (ou mesmo importantes) de lê-la e de se relacionar com ela?