07/01/2026
Coluna da ASERGHC no Sul21: 2026 entre a esperança e a frustração: a política neoliberal nas estatais brasileiras
O início de um novo ano costuma renovar expectativas. Para milhares de trabalhadores das empresas estatais brasileiras, no entanto, a sensação é de repetição. O calendário muda, mas a lógica que orienta a gestão dessas instituições permanece a mesma. Discursos de eficiência, modernização e responsabilidade fiscal seguem sendo usados para justificar arrocho salarial, precarização do trabalho e o esvaziamento das relações sindicais.
Essa sensação é ainda mais dura porque contraria expectativas concretas. A eleição de um novo governo, em 2022, alimentou entre os trabalhadores das estatais a esperança de ruptura com a lógica de arrocho, precarização e exclusão sindical herdada dos governos anteriores. Esperava-se mudança de rumo, reconstrução e valorização de quem sustenta o serviço público. Passados quase quatro anos, já às vésperas do último ano deste governo, o que se impõe é a frustração. A lógica neoliberal não foi superada, apenas reembalada.
Correios, Petrobras, Trensurb e o Grupo Hospitalar Conceição continuam formalmente estatais, mas vêm sendo administrados como se fossem empresas privadas. Defende-se o prédio, a marca e os ativos, mas não se defende gente. Não se defendem os trabalhadores que fazem essas empresas funcionarem todos os dias. Essa dissociação entre patrimônio público e valorização humana abre caminho para o mesmo projeto de desmonte operado por gestões partidarizadas.
Nesse modelo, a negociação coletiva existe apenas no discurso. Mesas permanentes de negociação transformam-se em espaços de enrolação, onde pautas estruturais são empurradas indefinidamente. As entidades sindicais são mantidas à margem, tratadas como meros carimbadores de propostas já prontas, sem qualquer construção real com a base. Planos de Cargos, Carreiras e Salários seguem congelados ou mutilados, enquanto propostas são apresentadas de forma impositiva. O resultado é um ambiente de trabalhadores desmotivados, submetidos a trabalho mecânico, sem perspectiva, largados pela gestão, vivendo frustração constante e adoecimento. Isso se expressa no aumento das faltas, afastamentos e licenças médicas, sintomas de um cotidiano de sobrecarga, insegurança e desgaste que já não pode ser tratado como normal.
Não se trata de falhas pontuais ou de gestores isolados. O que está em curso é uma opção política. Em nome do chamado equilíbrio fiscal e de metas econômicas, escolhe-se sangrar a base trabalhadora. A precarização das relações de trabalho, a terceirização crescente e a postura abertamente antissindical fazem parte de um mesmo projeto. Um projeto que, embora se apresente com nova roupagem, carrega as mesmas marcas do neoliberalismo que orientou governos anteriores, transferindo o custo do ajuste para quem está no chão de fábrica, no balcão de atendimento e nas emergências do SUS.
No Grupo Hospitalar Conceição, essa lógica se manifesta de forma clara. Os trabalhadores estão largados, atuando sob rotinas cada vez mais mecanizadas, sem incentivo, sem perspectiva de valorização e sem a implementação de um Plano de Cargos, Carreiras e Salários que há anos é reivindicado. A pressão por produtividade, metas e ampliação de procedimentos ocorre sem o devido dimensionamento de pessoal e sem reconhecimento financeiro. Ao mesmo tempo, a gestão empurra acordos goela abaixo nas mesas de negociação e avança em terceirizações que excluem categorias inteiras de direitos futuros, aprofundando a fragmentação da força de trabalho.
O discurso que sustenta essas escolhas costuma apontar para um suposto passivo trabalhista bilionário, apresentado de forma genérica como responsabilidade dos próprios trabalhadores. Repete-se a lógica de que o rombo precisa ser combatido à custa de salários, benefícios e concursos, enquanto contratos terceirizados, desperdícios e decisões administrativas equivocadas seguem intocados. Ainda assim, a conta é jogada nas costas de quem sustenta o funcionamento diário das instituições.
As consequências desse modelo não recaem apenas sobre os trabalhadores. Quando quem faz o serviço público acontecer é desvalorizado, o impacto chega diretamente à população. Falta de continuidade, perda de qualidade, improviso permanente e ineficiência não são acidentes. São resultados previsíveis de uma gestão que aposta na precarização como estratégia.
Essa frustração acumulada, tanto de trabalhadores quanto de usuários dos serviços públicos, é politicamente perigosa. Ao produzir desgaste, descrédito e sensação de abandono, essa lógica neoliberal cria terreno fértil para discursos autoritários e soluções fáceis da extrema direita, que se alimentam justamente da percepção de que o Estado não funciona e de que o serviço público é ineficiente.
Defender as estatais, portanto, é enfrentar o neoliberalismo que opera dentro dessas empresas, desmontando direitos, enfraquecendo a organização dos trabalhadores e frustrando expectativas. Não basta retirar as estatais da fila das privatizações se, no cotidiano, a política é de arrocho, PDVs em massa, retirada de direitos e falsas mesas de negociação. Um novo ano, e o último ciclo deste governo, só fará sentido se vier acompanhado de outra lógica: valorização concreta dos trabalhadores, negociação coletiva real, planos de carreira integrais e compromisso efetivo com o serviço público.
Artigo publicado no Sul 21: https://sul21.com.br/opiniao/2026/01/2026-entre-a-esperanca-e-a-frustracao-a-politica-neoliberal-nas-estatais-brasileiras-por-aserghc/