17/05/2021
"Cada cultura e época tem sua marcas preponderantes, que nos afetam a todos, embora de formas diferentes. Na nossa, o culto ao individualismo, os ideais de independência e autossuficiência caminham juntos com a sanha por popularidade, celebridade e influência. Estamos com o outro na condição de segui-lo ou ser seguido por ele. Atendemos a demandas em busca de aceitação, na contramão do desejo próprio. Os animais de estimação têm sido o paradigma da companhia perfeita, afinal, eles nos são fiéis e nunca discordam. Outra marca de nossa época é o ideal de produtividade neoliberal, que extrapola o âmbito do trabalho —e de caráter autoescravizante—, contaminando o lazer e as atividades pessoais. O circuito ininterrupto de trabalho-lazer-relações é mantido à base de dr**as lícitas ou ilícitas, tanto faz. As imagens nas redes sociais provam como nossa vida é produtiva de domingo a domingo. Só nos resta alternar esse ritmo desumano com períodos de paralisação alienada. Para fazer frente a isso, ao preço de muito sofrimento, temos, por exemplo, os jovens eremitas da era da hiperconectividade, os hikikomori —termo cunhado por Tamaki Saito em seu livro “Isolamento Social: Uma adolescência sem fim”. Esses jovens parecem não suportar as demandas sociais e se isolam voluntariamente —às vezes, durante anos—, para desespero de familiares e profissionais de saúde. Não suportar as demandas excessivas é dica de que caímos na armadilha de tentar dar conta delas, de tentar respondê-las. Vemos o alívio que algumas pessoas sentem com o isolamento, usando a quarentena como desculpa para dizer nãos, os quais não se atreviam a dizer. Esse vácuo possibilita que se ponha em xeque casamento, trabalho, filhos, vida social, o que pode ser bem assustador para quem vivia fugindo de si. Respondendo incessantemente às demandas, sobrava pouco tempo para olharmos nossos desejos.
Se a pandemia nos deu o álibi social, por outro lado não resolveu o problema de convivermos conosco sem as distrações do mundo. É difícil ser boa companhia para si mesmo, quando não queremos ouvir o que desejamos de fato. A quarentena acabará, mas a questão da solidão continuará um tema humano fundamental."
Vera Iaconelli.