29/05/2021
Eu fui uma criança bem moleca: jogava bola na rua, brincava de esconder; a rua era uma extensão de casa, junto com outras crianças.
Eu me sentia livre e em plena potência, gostava de quem eu era e era aceita nos espaços onde circulava.
Com 8 anos, minha mãe me matriculou no ballet clássico. Era um tanto rígido, mas eu tinha muito prazer em aprender algo totalmente novo.
No final do ano, era organizado o espetáculo com toda escola, com direito à apresentação no palco e figurino. Isto movimentava a turma em ensaios intensos.
A minha turma foi dividida em dois por altura e cada grupo apresentaria uma coreografia. Deste jeito, em cada aula, eram duas coreografias para ensaiar.
Quando faltava uma aluna, a professora colocava uma substituta para fazer o ensaio para não se perder a marcação do lugar.
Numa destas vezes, eu rapidamente me prontifiquei para ensaiar pela colega que faltou e a professora respondeu: mas tu sabe a coreografia? Se for como tu sabe a tua, estamos mal. E riu. A turma ficou olhando em silêncio.
O meu corpo todinho formigou, como se fosse eletrocutado. Por alguns segundos fiquei paralisada. Aquela fala não encaixava com o que eu pensava de mim. Foi a primeira vez que alguém me desmoralizou diante de outres. E aquela experiência não se encaixava no meu ser.
Com o tempo, foram outras falas de outras pessoas em diferentes contextos, a ponto de chegar uma hora e eu ser tão crítica comigo mesma que eu era meu pior algoz.
Resgatar a criança feliz consigo mesma levou muito tempo, aliás ainda é um processo.
Confere lá nos Stories as minhas virtudes em uma mão.