22/06/2023
Enquanto humanos só o amor não basta, apesar do senso comum instaurar uma áurea de que ele vence tudo. Somente o desejo dos pais não faz com que uma criança se desenvolva ou torne-se pessoa. Lembro de uma analogia meio bizarra de uma professora nas primeiras aulas de psicanálise que dizia: “a criança é só uma bola de carne quando nasce”. Ou seja, o bebê precisa ser investido pelos cuidadores para tornar-se sujeito, formar um ego. O bebê não existe sozinho. É o que se chama de investimento narcísico dos pais. Precisa de cuidado básico, de toque, de olhar, que esses cuidadores se conectem com uma linguagem não-verbal para entender as necessidades tão primitivas de algo que ainda não é psíquico, somente corpo e sensações.
Obviamente só com amor para esses investimentos acontecerem. E é paradoxal, uma vez que somente a ideia de amor não dá conta de um cuidado completo. Somente o amor não traduz, não compreende e não cuida por si só. Necessita concretude: colo, presença, atenção, olhar, preocupação, investimento emocional e financeiro, disposição, mudança e adaptação.
Precisa-se do amor-motor, mas além dele, pego emprestado de Winnicott sobre ter um cuidado “suficientemente bom”. Não exagerado e não faltante. Suficiente.
Voltando ao bebê e sua formação enquanto pessoa, existe uma simbiose natural que acontece com a mãe ou cuidador no início da vida. Automática e instintiva, pois como dito, não existe bebê sem cuidador. Entretanto, é uma simbiose que deve ser desfeita para que o desenvolvimento normal ocorra.
A tendência a simbiose nas relações afetivas, ver a dupla como amálgama de uma coisa só, não é raro de acontecer. E não é necessariamente ruim, porque há gozo. Mas também há perda nessa lógica. Perda de Eu, de Ego.
Contudo, nem toda relação precisa ser simbiótica. Em um relacionamento, a dupla pode investir narcisicamente no casal como algo além de cada individualidade, às preservando. Cada um lidando com seu narcisismo, sua história e constituição. G***r na relação, reconhecendo a alteridade.
Em dupla, investindo com arranjos, desarranjos e rearranjos.
Que possamos ter amores suficientemente bons.