13/05/2026
O livro A obscena senhora D, de Hilda Hilst, é uma leitura instigante e profundamente desafiadora. A autora narra a trajetória de Hillé, uma mulher em luto pela morte de seu companheiro, Ehud. Diante dessa perda, ela se retira do convívio social e passa a viver no vão da escada de sua casa, em um movimento de isolamento e introspecção.
Por meio de uma escrita singular, o texto revela o fluxo de consciência da narradora-personagem, cuja voz frequentemente se mistura à de outras personagens. Hillé conduz um monólogo que atravessa quase toda a narrativa, refletindo sobre questões complexas da existência, como a vida, a finitude e a presença — ou ausência — de Deus.
Na tentativa de encontrar respostas para seus questionamentos, sua fala desconstrói a noção linear de tempo. Passado, presente e futuro se entrelaçam com memórias e vivências, de modo que nem sempre é possível distinguir com clareza os planos temporais. Essa fusão também se estende às relações da personagem consigo mesma, com o mundo ao seu redor e com a memória de seu relacionamento com Ehud.
“Senhora D” era como Ehud a chamava, sendo a letra “D” uma referência à derrelição — termo que remete ao desamparo e ao abandono. Essa ideia sintetiza a experiência de Hillé, marcada pelo luto e por uma inquietação contínua diante das grandes questões da vida, da religiosidade e da morte.
✍️ Ivani Bressan
Sócia efetiva do IEPP