21/12/2025
Para refletirmos...
Hoje faço 89 anos. Meus três filhos me deixaram aqui dizendo que era "para o meu bem". Só esqueceram que o meu bem eram eles...
Meu nome é Joseph. Estou sentado nesta mesa de fórmica branca, num asilo que cheira a desinfetante de lavanda, encarando um prato de knödels que já esfriou. Não sei quem cozinhou. Também não sei se alguém lá fora, no mundo onde as pessoas correm com seus celulares, lembrou que hoje é o meu dia.
Tenho três filhos. Criei os três com o suor do meu rosto, trocando meus sonhos pelos deles. Há dois anos, eles me trouxeram para cá. Disseram a frase clássica, com sorrisos amarelos: "É para o seu bem, papai. Aqui o senhor terá médicos, terá companhia." Eles me deixaram no saguão e prometeram voltar no domingo. Mas os domingos passaram. Os meses passaram. E o telefone no corredor permaneceu mudo, como um túmulo vertical pendurado na parede.
Eu não sinto raiva. A raiva exige uma energia que eu não tenho mais. Eu sinto apenas uma tristeza mansa. Tristeza porque, no fundo do meu peito cansado, eu nunca deixei de amá-los — mesmo quando a ausência deles gritava que eu era um estorvo. Eu não queria presentes caros. Eu trocaria este prato de comida e todo o conforto deste lugar por um único abraço desajeitado. Por um "Feliz aniversário, velho".
Olhei para o relógio na parede. 18h00. O horário de visitas acabou. Fechei os olhos e fiz um pedido silencioso, não para soprar velas, mas para soprar a solidão: "Deus, que alguém pense em mim hoje. Só isso."
Foi quando senti uma mão tocar meu ombro. O toque era leve, quente e familiar. Meu coração disparou. Abri os olhos e me virei, esperando ver meu filho mais velho, ou talvez a minha caçula. — Vocês vieram... — sussurrei, com a voz embargada.
Mas não eram meus filhos. Parada ao meu lado, vestida não com roupas de hospital, mas com aquele vestido azul florido que ela usava nos domingos de 1970, estava Helena. Minha esposa. A mulher que eu enterrei há dez anos. Ela estava jovem, radiante, sem as marcas da doença que a levou. Ela sorriu e estendeu a mão para mim. — Eles não vêm, Joseph — ela disse, com uma doçura que fez minhas lágrimas secarem instantaneamente. — Eles estão ocupados demais com o mundo deles. Mas eu nunca esqueci o seu dia.
— Helena? — perguntei, confuso. — Mas você...
— O jantar está esfriando, meu amor — ela interrompeu, apontando para a porta de saída do asilo, que agora brilhava com uma luz dourada, muito diferente da luz fluorescente do corredor. — Vamos para casa. A nossa casa de verdade.
Eu olhei para o meu prato de knödels intocado. Olhei para as minhas mãos enrugadas. E então, sem dor, sem o peso da artrose, sem a bengala, eu me levantei. Segurei a mão de Helena. Senti uma paz absoluta, uma alegria que não sentia desde a infância. Caminhamos juntos em direção à luz, deixando para trás aquele refeitório triste.
Na mesa de fórmica branca, o corpo físico de Joseph pendeu para frente, a cabeça descansando suavemente sobre os braços cruzados, como se estivesse apenas tirando um cochilo após o jantar.
Cinco minutos depois, a enfermeira da noite entrou correndo no refeitório. — Seu Joseph! Seu Joseph! Telefone para o senhor! Ela tocou no ombro do idoso para acordá-lo. — Seu filho está na linha! Ele disse que atrasou, mas que queria dar feliz aniversário!
A enfermeira sentiu a pele fria. Ela checou o pulso. Nada. Ela olhou para o telefone sem fio em sua mão, onde a voz do filho repetia impaciente: "Alô? Pai? Anda logo, eu tenho um jantar pra ir."
Com lágrimas nos olhos, a enfermeira levou o aparelho ao ouvido e disse a frase que assombraria aquele filho pelo resto de seus dias: — Sinto muito, senhor. O seu pai cansou de esperar. O telefone tocou... mas quem atendeu a porta foi Deus.
Ame hoje. Abrace hoje. O tempo não espera a sua agenda liberar. E a saudade é uma visita que, quando chega, nunca mais vai embora.