23/02/2026
23 de fevereiro de 2026
Dr. Sérgio Spritzer | Neurocom Sérgio Spritzer
Quando eu falo que estamos desorientados no espaço digital, não estou fazendo uma crítica à tecnologia. Estou descrevendo uma experiência humana concreta.
Você já passou um dia inteiro de reuniões online e, mesmo assim, sentiu que quase nada realmente aconteceu? As conversas aconteceram; as decisões foram registradas e os prazos foram definidos. Mas algo ficou suspenso, como se faltasse consistência. É dessa sensação que estou falando.
Não é apenas cansaço. É perda de referência.
O que está acontecendo conosco?
Nas interações presenciais, nosso corpo participa o tempo todo. O tom da voz, o ritmo da fala, o silêncio, o olhar, a postura — tudo isso organiza o campo relacional humano. Nosso sistema nervoso regula e é regulado na presença do outro. As pesquisas em neurociência social mostram que há co-regulação fisiológica nas interações (Siegel, 2012; Porges, 2011). Não pensamos sozinhos. Pensamos em composição.
No ambiente digital tradicional, parte dessa composição enfraquece. A comunicação continua, mas o corpo quase desaparece. E quando o corpo sai da equação, o sentido começa a se tornar instável.
A literatura sobre cognição incorporada (Varela, Thompson & Rosch, 1991; Noë, 2004; Wilson, 2002) já demonstrou que mente e corpo não são separáveis. Pensar é agir no mundo com o corpo. Se isso é verdade, a comunicação digital que ignora o corpo inevitavelmente cria distorções.
E nós estamos sentindo isso.
Exemplo 1: A equipe produtiva que não se entende
Acompanhei uma equipe de tecnologia que se orgulhava de ser “100% digital e ágil”. Reuniões curtas, chats ativos, produtividade alta. Mas havia conflitos recorrentes. Retrabalho constante. Sensação de tensão invisível.
Ao observar as interações, notei alguns padrões:
Câmeras desligadas.
Interrupções frequentes.
Pessoas digitando enquanto outras falavam.
Decisões tomadas sem confirmação real de compreensão.
O que estava acontecendo? Havia troca de informações, mas não havia um campo relacional estável.
Propusemos mudanças simples:
Todos com câmera ligada, não por controle, mas por referência humana.
Uma pausa de 10 segundos antes de tomar decisões importantes.
Rodada final em que cada pessoa dizia, com suas próprias palavras, o que tinha entendido.
O resultado não foi mágico, mas foi consistente: menos retrabalho, menos tensão, mais clareza. O grupo começou a se perceber como um NÓS real, e não apenas como usuários conectados.
Isso confirma algo que defendo há anos na minha formulação de psiconeurologia (Spritzer, Fundamentos para uma Psiconeurologia): o pensamento não é um ato isolado do cérebro; ele se organiza na relação entre EU, TU e ELE. Quando essa composição se fragiliza, surgem ruídos que não são apenas técnicos — são relacionais.
Inteligência Relacional e Implicada.