09/03/2026
Sabe quando dizem que eu sinto demais, como se isso fosse um defeito de fabricação?
Pois sinto, sim… e no amor isso vira um furacão dentro de um copo d’água. Cada carícia não é só um toque, é um incêndio que percorre cada terminação nervosa. E cada silêncio, meu Deus, cada silêncio ecoa como um grito no meu peito. É a tríade, a maldita tríade da hipersensibilidade governando o corpo.
Primeiro: os sentidos em alerta máximo, como se a pele fosse uma ferida viva à espera do toque ou da ausência.
Segundo: a montanha-russa emocional, em que uma palavra mais doce me eleva às nuvens e um tom mais seco me atira ao abismo. Não há meio-termo, não há calmaria… é sempre o oito ou o oitenta.
E depois o terceiro, o mais cruel: a hiperconsciência social, a necessidade de ler cada microexpressão para tentar prever o dia de amanhã. O olhar, o desviar do olhar… tudo vira um algoritmo frenético que só cansa.
E cansa, amor, cansa profundamente viver sempre em estado de alerta. Mas não há como desligar; parece que o sistema nervoso foi programado para amar em modo de sobrevivência. Então chega a culpa, a sentença de ser “demais” ou “insuficiente”. Demasiado intensa quando surgem poemas às três da manhã, insuficiente quando uma festa se torna insuportável. E você, sem culpa, tenta entender… mas como entender se nem aqui dentro tudo é claro, se essa fome também me confunde?
A hipersensibilidade não é só sentir muito; é sentir tudo ao mesmo tempo: o amor, o medo de perder, a alegria de ter, a angústia de não saber se amanhã ainda existirá lugar no coração. Quando há amor com paciência, parece que toco o divino. Mas quando surge distância, mesmo que pequena, o mundo ameaça ruir… porque cada tijolo da minha segurança foi cimentado na forma como você me olha.
Já disseram que sou como um cristal, bonita, mas frágil, e durante anos engoli esse rótulo. Agora percebo outra coisa: esse cristal também é uma lente de aumento, capaz de ver belezas que outros não veem, de sentir profundezas que muitos nem imaginam. A questão nunca foi apagar o fogo, mas aprender a dançar com ele sem me queimar.
E talvez isso seja possível, se houver espaço para aceitar que esse amor vem com um termostato avariado.
Porque, no fundo, essa hipersensibilidade é a maior loucura e também o maior dom: amar assim, sem rede, sem defesas, com a pele e a alma expostas. Se isso for demais para alguém, tudo bem. Mas aqui dentro só existe uma forma de amar… inteira.
Vida de Mulher