07/01/2026
“A primeira vítima da IA pode ser a nossa capacidade de acreditar no outro.”
E quando essa confiança se deteriora, não sofre apenas o indivíduo, mas toda a sociedade.
A confiança epistêmica, conceito central na Teoria da Mentalização, é a disposição para considerar o outro como uma fonte válida de conhecimento.
Ela sustenta a aprendizagem, a mentalização, a revisão de padrões relacionais e, claro, a aliança terapêutica.
Sem essa abertura, não há troca signif**ativa. Não há transformação.
O problema é que estamos vivendo uma erosão ambiental silenciosa.
A proliferação de imagens, áudios e vídeos produzidos por IA — quase sempre sem rotulagem e cada vez mais indistinguíveis do real — corrói a clareza perceptiva que o sujeito precisa para se orientar no mundo.
O visível deixa de ser confiável. E quando o ambiente é enganoso, a confiança epistêmica se fragiliza.
Para pacientes com histórias de ambientes imprevisíveis, intrusivos ou negligentes, esse cenário tecnológico pode amplif**ar a desconfiança de base, tornar a mentalização mais frágil e intensif**ar experiências de desamparo e desesperança.
A fronteira entre intenção e manipulação f**a nebulosa — com impacto clínico direto.
Por isso, discutir IA é um tema urgente na formação em psicoterapia.
É uma questão ética e de saúde mental pública.
Precisamos de rotulagem obrigatória, transparência e mecanismos de verif**ação que preservem condições mínimas para que as pessoas — e nossos pacientes — possam distinguir o real do fabricado.
Psicoterapeutas trabalham diariamente para restaurar a confiança epistêmica onde ela falhou. Mas é preciso que o ambiente humano e tecnológico também faça sua parte.
Se este debate importa para você, compartilhe.
Os psicoterapeutas precisam estar na linha de frente dessa conversa.