10/11/2025
Sempre acreditei que existisse apenas um caminho a ser seguido — como se o destino fosse algo nítido, traçado com a precisão das histórias dos livros.
Aqueles em que o protagonista se apaixona à primeira vista e, apesar das reviravoltas, o final é sempre o mesmo: os dois no altar, como se tudo tivesse sido premeditado.
Na realidade, aprendi que não é bem assim.
Sentimentos, na maioria das vezes, são construídos — são escolhas.
Mas, se são escolhas, existe uma “certa”?
Toda escolha traz consequências, mas também a perda de algo.
E quando vivemos tão focados na perda, esquecemos o motivo que nos levou a escolher.
Será que cada escolha foi realmente nossa?
Ou, de forma inconsciente, alguém também escolheu por nós?
Sempre fui uma leitora assídua, vivendo mais no mundo imaginário do que no real — e talvez por isso acreditei por tanto tempo que o amor deveria ser como nos livros.
Mas, como já disse, livros e realidade pertencem a universos distintos.
Na vida real, muitas vezes as borboletas no estômago não são paixão, mas incômodo.
O incômodo de lidar com o outro — tão semelhante e, ao mesmo tempo, tão diferente de mim.
O incômodo de compreender que o outro não está ali para completar o que me falta.
Na clínica, vejo com frequência pessoas que, ao se relacionarem, acabam se anulando — ou desejando anular o outro.
E, diante desses discursos, me pergunto:
o que é, de fato, um amor saudável?
Por que se relacionar é, ao mesmo tempo, tão desafiador?
Com o tempo, compreendi que, sob o olhar da psicanálise, um amor saudável é aquele em que há dois sujeitos — cada um com sua falta, seu desejo e sua história.
Amar não é fundir-se, é encontrar o outro sem se perder de si.
É aceitar que ninguém nos completa, mas pode nos acompanhar na travessia.
Como diz Ana Suy, em A gente mira no amor e acerta na solidão, o amor nos aproxima daquilo que temos de mais humano: a falta.
Amar é aceitar que, mesmo junto, há sempre algo de solitário — e que é justamente esse espaço entre um e outro que torna o encontro possível.
O amor, afinal, não é sobre preencher o que falta, e sim suportar o desencontro e ainda assim escolher o encontro.