02/12/2025
Vejo-me atravessada pelos estudos sobre HIV há aproximadamente 20 anos, quando tive a grande chance de, ainda enquanto estudante de graduação em psicologia,
trabalhar como assistente de pesquisa num estudo cujo principal foco era compreender a resposta religiosa entre três das principais matrizes de religiões brasileiras, na sua forma de lidar com a temática dentro de suas instituições.
Vivi a epidemia antes mesmo de compreender os dados epidemiológicos que compõem a prevalência do vírus e da doença na população brasileira.
Foram muitas pessoas e tantas delas próximas que marcaram-me afetivamente por lutarem por suas vidas para vivê-las com dignidade enquanto o vírus ou AIDS tomava seus corpos.
Desafio perguntar até mesmo entre os mais jovens quem não conhece ou conheceu alguém que vive com HIV ou mesmo que fatalmente morreu de AIDS?
A epidemia de significados, como sugere Susan Sontag, foi ganhando contornos diversos. E em sua 4.a década, desafia-nos a pensarmos que, se os avanços biomédicos nos auxiliam a esperançar o fim da AIDS, existe ainda tantas barreiras a serem pensadas, destaco a da juvenização e da racialização da epidemia de HIV/AIDS.
Segundo o último boletim epidemiológico o percentual dos novos casos é mais alto na população mais jovem e o maior percentual de mortes em decorrência da AIDS é na população negra.
O fim da AIDS é atrasado por um fracasso que é social e não moral e de nada adianta os avanços biomédicos se eles não vierem acompanhados de política de acolhimento, ou por que não dizer uma política de solidariedade.
Precisamos resgatar o que foi mais importante e eficaz na resposta à epidemia: a solidariedade, tal como preconizava Betinho.