01/04/2026
"As relações causais de fatos psíquicos entre si, que podemos observar a qualquer momento, contradizem o ponto de vista epifenomenológico, que tem uma semelhança fatal com o parecer materialista, de que a psique é uma secreção do cérebro, tal como a bile é uma secreção do fígado. Seria melhor que uma psicologia que considera o acontecer psíquico como um epifenômeno se denominasse fisiologia cerebral e se desse por satisfeita com o paupérrimo resultado fornecido por uma tal psicofisiologia. O acontecer psíquico merece ser considerado como um fenômeno em si, pois não existe razão alguma para considerá-lo um mero epifenômeno – embora esteja ligado à função cerebral – assim como tampouco podemos conceber a vida como um epifenômeno da química carbônica".
📝 Energia Psíquica, parágrafo 10.
É interessante observar que esse texto já tem 98 anos e continua bem atual. Ainda hoje o fenômeno psíquico é reduzido a mero epifenômeno cerebral, ou seja, é um fenômeno totalmente material, na perspectiva da teoria materialista que a sustenta. Inclusive leva alguns físicos de renome a, inclusive, sugerir que quando terminarmos de mapear o cérebro a psicologia f**aria obsoleta, traduzindo de maneira extremamente oportuna o quanto a psicologia contemporânea não superou os problemas acerca do seu método e objeto pelo fato de tentarem a todo custo vender a ideia de que o psíquico depende totalmente do funcionamento cerebral.
Se estivesse vivo, Jung continuaria repetindo que estamos criando uma vasta mitologização do cérebro e que as neurociências, sozinhas, não são suficientes para explicar o funcionamento psicológico ou instrumentalizar a clínica, já que os resultados oferecidos são tão paupérrimos quanto os fornecidos à época pela psicofisiologia.
Por isso ainda continua atual e correto no seu pensamento de que o fenômeno psíquico deve ser considerado um fenômeno em si, com dignidade própria e não ser reduzido a um epifenômeno do cérebro.
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Anderson Santiago da Silva
Psicólogo (CRP 02/181788), professor universitário, supervisor clínico, especialista em Psicologia junguiana com enfoque na clínica e co-autor de livros sobre psicologia analítica e suicídio