03/03/2026
As férias deveriam ter sido descanso. Sol, mar, risadas, fotos na areia. Mas bastou um segundo. Uma onda mais forte. Uma queda na praia.
E o chão sumiu. O diagnóstico veio pesado: a medula cervical foi lesionada. Sem força nos braços e nas pernas, havia um homem e sua família que pareciam ter acabado ali, naquela areia. Foi assim que começou meu “ano neurocirúrgico”.
Operamos. Cirurgia longa e delicada: Descompressão + Artrodese de quatro níveis por via anterior. Uma cirurgia incomum para casos bem selecionados. Tudo correu bem. Quando terminei, senti aquele misto de exaustão e oração. “Será que vai voltar?”. Porque há momentos em que a técnica vai até certo ponto. Depois disso é fé.
Nos primeiros dias, ele mal conseguia mexer os braços. O olhar era de quem ainda estava tentando entender se aquilo era um pesadelo. Mas aí aconteceu algo que eu nunca me canso de testemunhar: o ser humano começou a reagir. Um pequeno movimento. Depois outro. Um dedo que responde. A vida é teimosa. E ele também.
Ainda no hospital, iniciou a reabilitação. Com dor. Com cansaço. Mas com disciplina. Com esperança. Semanas depois cruzou um oceano e hoje está em um centro de reabilitação no seu país, perto de casa, junto da família. Treina como quem reconstrói, e celebra, a própria casa tijolo por tijolo.
Pense comigo. Quantas vezes reclamamos porque o vôo atrasou? Porque o treino foi cancelado? E há alguém reaprendendo a mover as mãos. A vida muda em um segundo, mas, às vezes, ela também recomeça em segundos. Pequenos segundos de movimento.
Eu não sei qual será o desfecho final dessa história. Medicina não é roteiro fechado de cinema. É trabalho. É insistência. Mas eu sei de uma coisa. Enquanto houver fé, haverá futuro. E talvez seja essa a maior lição: a força não está apenas em andar. Está em decidir lutar quando o corpo não obedece.
Hoje, se você pode caminhar, abrace alguém. Se você pode mover as mãos, construa algo. E, se estiver passando por sua própria queda, física, emocional ou profissional, lembre-se: a reabilitação começa quando a esperança decide ficar.
Que Deus nos dê humildade para valorizar o que temos. E coragem para reconstruir o que perdemos.