23/12/2025
Em que momento a sua consciência deixa de ser instrumento de correção e passa a ser cúmplice do erro? Talvez não no instante do engano bruto, nem na queda involuntária, mas naquele ponto mais sutil e perigoso em que o sujeito já sabe e, ainda assim, permanece. O erro, então, não se dá por cegueira, mas por acomodação lúcida. A consciência não falha, ela consente.
Será esse o momento em que a reflexão, em vez de interromper o gesto equivocado, passa a justificá-lo? Quando o pensamento, ao invés de corrigir o rumo, dedica-se a construir álibis internos, sofisticados, elegantes, quase irrefutáveis? A consciência torna-se cúmplice quando deixa de perguntar “é verdadeiro?” e passa a perguntar apenas “é defensável?”. Quando a ética cede lugar à retórica interior.
Quantas vezes a lucidez, tão celebrada, não se converte em instrumento de adiamento? Sabemos o que deveria ser feito, mas transformamos o saber em adiamento permanente, em análise infinita, em prudência simulada. A consciência, nesse ponto, não nos freia, ela nos protege do desconforto de agir. Não corrige o erro, administra-o.
Talvez a cumplicidade comece quando a consciência passa a amar mais a coerência do ego do que a verdade dos fatos. Quando corrigir significaria desmontar a própria imagem, admitir a própria falha, atravessar a vergonha. A consciência então negocia, ajusta, suaviza, reinterpreta. Não mente abertamente, mas seleciona. Não nega, mas relativiza. É nesse jogo silencioso que o erro se torna habitável.
Não será também cúmplice aquela consciência que se contenta em reconhecer o mal sem combatê-lo? Que confunde lucidez com absolvição? Há um conforto perverso em dizer “eu sei”, como se o saber já fosse metade da redenção. Mas saber sem transformação é apenas um erro esclarecido.
Em que ponto, portanto, a consciência se trai? Talvez quando ela deixa de doer. Enquanto a consciência dói, há correção possível. Quando ela se torna confortável, quando já não fere, quando apenas explica, algo se perdeu. A consciência cúmplice é aquela que ilumina o erro apenas o suficiente para torná-lo suportável, nunca para torná-lo insustentável.
E a pergunta final permanece, incômoda e necessária, quantas das nossas certezas morais são, na verdade, pactos silenciosos com aquilo que já decidimos não mudar?
Oliver Harden