15/02/2026
Hoje eu não falo só como psicóloga, falo como alguém que ficou profundamente tocada por essa notícia. Tanto que demorei para falar sobre o assunto.
Esse caso me atravessa. Me indigna, me choca, me revolta.
Um pai matou os próprios filhos e tentou justificar o que fez culpando a esposa.
Nada justifica esse ato. Nenhuma dor autoriza a aniquilação do outro. O que vemos aqui é o retrato de uma falha profunda na capacidade de lidar com a frustração, com o limite e com a própria humanidade do outro.
Pela psicanálise, o que aparece não é o amor — é a posse. Quando o outro deixa de ser reconhecido como sujeito e passa a ser vivido como extensão do próprio eu, qualquer frustração é sentida como uma ameaça insuportável. A traição, nesse cenário, não é elaborada como perda, mas como ferida narcísica profunda: o ego não suporta o limite, o “não”, a separação.
O amor, na sua forma mais madura, admite a falta. Aceita que o outro é outro. Já a lógica da posse tenta anular essa diferença. E quando não há recursos psíquicos para simbolizar a dor, para nomear o sofrimento, para sustentar a frustração, a violência pode surgir como tentativa primitiva de “resolver” o que não foi elaborado.
Não foi um ato passional. Foi um ato de domínio.
Não foi desespero amoroso. Foi onipotência.
Na clínica, sabemos que o ódio pode emergir quando o amor é vivido de forma infantil, fusional, sem limites. Sigmund Freud já apontava que amor e ódio não são opostos simples; eles podem coexistir quando o sujeito não suporta a perda do objeto amado.
Mas isso explica, não justifica.
E é impossível ignorar: as crianças foram usadas como objeto de vingança. Instrumentalizadas para ferir a mãe, para reafirmar poder, para negar a separação. Isso é devastador. Criança não é extensão de conflito conjugal. Criança não é território de guerra emocional.
Quem ama protege.
Quem ama cuida.
Quem ama não destrói.
E é por isso que esse caso nos convoca — como sociedade e como clínica — a falar de responsabilidade emocional, de elaboração psíquica e, sobretudo, de proteção à infância. Porque quando o adulto não sustenta seus afetos, o preço nunca pode ser pago por uma criança.