29/01/2026
Inadmissível. Brutalmente vergonhoso. Hoje o teor deste perfil foge um pouquinho dos temas leves e alegres. É necessário. Hoje, não escrevo como técnico. Escrevo como humano. Um desabafo, como veterinário.
O caso do cão Orelha me abalou. Mais um caso. Mais uma crueldade. E o pior que não é surpresa, porque, infelizmente, a crueldade humana já não nos surpreende mais. A violência fria, calculada e, pasmem, sem motivo, sem defesa possível. O que foi feito com ele é ignorância, não é “falta de informação”. É escolha. É maldade. É o lado mais feio do ser humano quando ele decide que pode tudo, inclusive destruir quem só sabe confiar, quem só sabe nos amar.
Assim como os nossos amiguinhos comunitários, amiguinhos que moram na rua, que estão pelo Cassino, por exemplo, o Orelha não gritou por socorro. Ele fez somente o que cães fazem: acreditou nas mãos que se aproximavam. Acreditou nos olhares, no "carinho". Acreditou nos humanos. E é isso que mais me (nos) dói!
Ser veterinário é lidar diariamente com amores incondicionais. É tentar salvar vidas, inclusive algumas que nunca deveriam ter sido colocadas em risco. É cuidado. É secar as lágrimas de tutores e, muitas vezes, segurar as próprias. É ir pra casa com o cheiro da clínica na roupa e o peso da impotência no coração em casos irreversíveis. É olhar para minha filha e entregar o melhor de mim para que a educação dada prevaleça e seja uma boa protagonista em suas escolhas futuras.
O caso do Orelha não é “só mais um”. Todos os dias. Ele é um lembrete brutal de que a minha profissão não é só ciência: é também resistência. É continuar acreditando nos animais mesmo quando alguns humanos falham. Que a memória do Orelha nos obrigue a ser mais voz, pois enquanto existir um animal que ama sem entender a crueldade, eu sigo aqui. Por vezes cansado, ferido, às vezes desacreditado, mas nunca indiferente.
Descansa, Orelha.
Descansa.