24/02/2026
Quando uma filha se afasta da mãe, quase nunca é porque deixou de amar.
É porque amar, naquele vínculo, começou a custar caro demais para o corpo, para a mente, para a alma.
Tem afastamentos que não nascem da frieza.
Nascem da exaustão.
Nascem quando o peito vive apertado, quando a voz treme antes mesmo da conversa começar, quando o corpo inteiro entra em alerta só de ouvir um passo, um tom, um silêncio.
Porque sim, o silêncio também fere.
Às vezes, fere mais do que a palavra dura, porque deixa a filha sozinha dentro de uma culpa que não tem nome.
Muita gente olha de fora e julga.
Diz que é ingratidão, rebeldia, dureza.
Mas quem vive sabe: há filhas que se afastam para não adoecer mais, para não se perderem de si, para não continuarem se abandonando na tentativa de serem aceitas.
Se afastar, nesses casos, não é vingança.
É limite.
É sobrevivência psíquica.
É o corpo dizendo com coragem o que a boca não conseguiu dizer por anos:
“Eu te amo, mas desse jeito eu não consigo continuar.”
E isso dói.
Dói porque toda filha, em algum lugar muito íntimo, gostaria de poder permanecer sem se machucar.
Gostaria de ter colo sem medo, presença sem tensão, amor sem ferida.
Mas quando o chão materno vira ameaça, afastar-se pode ser o primeiro gesto de cuidado consigo mesma.
Não contra a mãe.
A favor da própria vida.
Há uma culpa silenciosa nesse movimento, eu sei.
Mas também há dignidade.
Porque escolher não sangrar mais dentro do mesmo vínculo é um ato profundo de consciência.
Nem todo afastamento é ausência de amor.
Às vezes, é o amor-próprio nascendo depois de anos de sobrevivência.
Jussara Budniak Psicanalista Alma-no-divã