21/01/2026
A “Síndrome de Estocolmo” dentro de casa: quando a mãe n@rcisistt@ vira o centro do mundo do filho
Jussara Budniak — Psicanalista | Alma-no-divã
Existe um tipo de prisão que não tem grades.
Ela tem voz. Tem olhar. Tem ironia. Tem chantagem.
E, às vezes, tem até colo.
Quando uma mãe n@rcisistt@ instala um ambiente de abuso e controle, o filho não vive apenas um conflito: ele vive um regime emocional. E para sobreviver, a psique faz o que sempre fez desde o início da vida: cria estratégias de adaptação. Algumas salvam na infância — e aprisionam na vida adulta.
É aqui que nasce um mecanismo que se parece com a Síndrome de Estocolmo emocional: a vítima cria um vínculo afetivo com o agressor para garantir segurança psíquica. Não é “amor”. É sobrevivência disfarçada de lealdade. É dependência emocional com a máscara da gratidão. É idealização para não enlouquecer.
Como a mãe n@rcisistt@ induz esse vínculo
1) Isolamento e controle
A mãe vai estreitando o mundo do filho até sobrar apenas ela. Controla percepções, interpretações, sentimentos. Desautoriza a realidade da criança:
“Você é sensível demais.”
“Isso não aconteceu.”
“Você entendeu errado.”
Com o tempo, o filho aprende que sua leitura do mundo não vale. E, sem perceber, passa a depender dela até para saber o que sente.
2) Tratamento intermitente: o veneno que vem com açúcar
Ela alterna frieza e afeto. Reprova e depois “abraça”. Humilha e depois elogia. Some e depois dá migalhas de atenção.
Esse vai-e-volta cria um vínculo traumático: o filho vive em estado de alerta e esperança — como quem espera “a versão boa” da mãe voltar. E quando volta, parece milagre. Parece amor. Mas é apenas o ciclo recomeçando.
3) Inversão de papéis: a infância roubada
O filho vira extensão, terapeuta, confidente, escudo emocional. A criança cuida da mãe para não ser punida.
Aqui se forma uma identidade de sobrevivência:
“Se eu for útil, eu existo.”
“Se eu agradar, eu estou seguro.”
O preço é alto: o filho perde a si mesmo tentando manter a mãe estável.
4) Exigência de admiração: o altar da mãe perfeita
A mãe exige ser vista como impecável. Não tolera limites, contradição, autonomia.
O filho aprende que para sobreviver precisa **adorar**. E quando adorar não funciona, ele tenta mais. Porque no inconsciente infantil, a lógica é simples e cruel:
“Se minha mãe me fere, o problema deve ser eu.”
As defesas psíquicas que mantêm a vítima presa
Vínculo de sobrevivência
Como um bebê precisa da mãe para viver, o filho aprende a “amar” quem o ameaça — porque depender é inevitável. A psique escolhe o que mantém vivo, mesmo que doa.
Dissonância cognitiva
A mente tenta conciliar o inconciliável: “Eu amo minha mãe” e “minha mãe me machuca”.
Para reduzir a ansiedade, nasce a fantasia:
“Ela faz isso porque me ama.”
“Ela sofreu muito.”
“Eu que provoco.”
É um pacto interno para manter o chão onde a infância pisaria.
Negação e dissociação
O abuso vira “normal”. A dor vira “exagero”. A criança se separa do que sente para continuar existindo naquele ambiente. O corpo sente, mas a consciência anestesia.
Supervalorização de migalhas
Uma pequena bondade vira prova de amor. Um elogio vira salvação. Um gesto mínimo vira dívida eterna.
E assim se cria a lealdade: não pela presença do amor, mas pelo medo do abandono.
Como lidar: o caminho de volta para si
1) Reconhecer o abuso
É duro, porque dói admitir que aquilo que você chamou de amor era, muitas vezes, controle. Mas reconhecer não é odiar — é ver. E ver é o primeiro ato de liberdade.
2) Estabelecer limites, mesmo com culpa
A mãe n@rcisistt@ reage mal ao “não” porque o “não” rompe o império dela.
Mas limites são a sua certidão de existência. Limite é dizer:
“Eu não vou mais negociar minha dignidade para ter migalhas.”
3) Buscar apoio externo
Terapia, grupos, pessoas que entendem essa dinâmica. O abuso n@rcisistt@ confunde a mente e distorce a realidade. Você precisa de espelhos limpos para se reencontrar.
4) Desenvolver independência emocional
Independência não é “se tornar frio”. É aprender a se cuidar, se proteger, se validar.
É sair do papel de criança que implora e entrar no lugar do adulto que escolhe.
Se você se identificou, eu quero te dizer uma coisa com a seriedade que esse tema exige:
não é fraqueza ter se apegado a quem te feriu.
Foi inteligência emocional de sobrevivência.
Mas o que salvou sua infância não precisa governar sua vida inteira.
Você não precisa mais provar amor para merecer paz.
Você só precisa voltar para si.
Jussara Budniak — Psicanalista | Alma-no-divã