28/02/2026
Recentemente uma jovem ganhou minha atenção com sua perspicácia na forma de responder às perguntas dos jornalistas. Eileen Gu, esquiadora de estilo livre, ficou mundialmente conhecida ao conquistar 1 medalha de ouro e 2 de prata nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2026.
Um jornalista faz uma pergunta de mal gosto, mas muito pertinente ao pensamento contemporâneo. “Você vê isso como duas pratas conquistadas ou dois ouros perdidos?”
Gu responde brilhantemente:
“Estou fazendo meu melhor... Fazendo coisas que literalmente nunca foram feitas antes — então acho que isso é mais do que suficiente.”
Na sociedade da exaustão, a perseguição de modelos idealizados nos deixa a constante sensação de fracasso. Na clínica com adolescentes, se tornou comum a lista das top 5 cirurgias plásticas desejadas. O corpo deve ser livre de marcas, gorduras, pelos, mas ao mesmo tempo preenchido por músculos e ácido hialurônico. A insatisfação que poderia ser mola para o desejo se torna espiral da inalcançável perfeição. Não há ponto de chegada.
Nessa perspectiva de pressão pela alta performance, as pequenas conquistas do dia a dia perdem reconhecimento. O percurso é desvalorizado em detrimento da chegada. E a chegada só vale se for ao pódio do ouro.
Em Freud, vemos que essa é a nossa condição humana: somos fundamentalmente frágeis, incompletos e imperfeitos. Tropeçamos. Ao mesmo tempo, é na presença confiável do outro que podemos criar, desejar e sustentar nossa própria existência com maior autenticidade. É nesse encontro que nos humanizamos.
O psicanalista Jean-Pierre Lebrun aponta que, quanto menos estamos preparados para enfrentar as dificuldades inerentes à existência — como a perda de uma competição, uma demissão, o término de uma relação amorosa, uma mudança de casa ou a morte de alguém querido —, maior tende a ser nossa inclinação a recorrer a atividades ou substâncias que funcionem como anestesia, numa tentativa de evitar o contato e a elaboração dessa dor.
Aprender a suportar a condição humana é reconhecer que a vida inclui percalços.
É desejar o ouro, sim — mas compreender que um segundo lugar pode ser, verdadeiramente, mais do que suficiente e digno de muita comemoração.