19/05/2026
Um terapeuta experiente não é aquele que “já viu tudo”.
É aquele que continua curioso.
Porque, na clínica, o momento em que acreditamos já saber exatamente o que está acontecendo costuma ser também o momento em que começamos a deixar de ver a pessoa real diante de nós.
A experiência é importante. Ela amplia repertório, ajuda a reconhecer movimentos recorrentes, oferece sustentação em situações difíceis. Mas experiência não pode se transformar em fechamento perceptivo. Quando isso acontece, o cliente deixa de ser alguém singular e passa a ser encaixado rapidamente em categorias conhecidas, hipóteses prontas, leituras automáticas.
A curiosidade clínica funciona quase como um antídoto contra isso.
Não se trata de curiosidade invasiva, voyeurística ou alimentada por necessidade de controle. Também não é uma busca ansiosa por informações. É outra coisa: uma disposição genuína para continuar encontrando o outro como alguém que ainda pode surpreender.
Curiosidade clínica aparece quando o terapeuta consegue escutar uma fala aparentemente “comum” sem reduzir imediatamente aquela experiência a um conceito decorado.
Ela exige presença.
Porque a curiosidade verdadeira não combina com pressa. Não combina com a necessidade de mostrar inteligência o tempo inteiro.
O terapeuta curioso percebe que ali existe algo a ser acompanhado — não imediatamente explicado.
Uma das maiores diferenças entre uma escuta burocrática e uma escuta clínica viva está exatamente aí:
na capacidade de continuar interessado no processo humano sem transformá-lo rapidamente em conclusão.
E isso vale mesmo depois de muitos anos de clínica.
Porque pessoas não são casos repetidos.
Não são diagnósticos ambulantes.
Não são versões previsíveis de teorias que já conhecemos.