03/03/2017
Um pizzaiolo em Itaipava
(Uma história de vínculos)
Ser psicóloga e psicoterapeuta também é um vício.
Quer saber como me dei conta – vivamente – disso?
Durante algum tempo, frequentando o supermercado de Itaipava que tem uma pizzaria, sempre perguntava às moças da seção de pizzas: “o que aconteceu com aquele pizzaiolo gordinho e muito bom? Não o vejo mais...” Com a minha insistência, elas acabaram
respondendo: “ah, ele não trabalha mais aqui!” Mas ninguém pode me dizer para onde ele tinha ido. A cada dia que eu perguntava, ouvia: não sei.
Lá pelas tantas, desisti de saber, mas não o esqueci nos dois anos seguintes.
Poucas semanas atrás, fui a um restaurante com um nome bizarro – Matilda -, localizado perto da ponte que liga Itaipava à estrada para Juiz de Fora. É uma pizzaria incrível de boa. Massa leve, consistência primorosa, farinha especial (as tais 000 – uma sofisticação que não me diz muito, mas impressiona...). A preparação das pizzas e o forno ficam à vista de algumas das mesas, onde, claro, me sentei com amigos. Gosto de ver artesãos
trabalhando. Eles, que são minha antítese, constituem uma atração perene para mim.
Conversa vai, conversa vem, olho atenta para o pizzaiolo-mor.
Peraí. É ele! O do supermercado! Pergunto à proprietária que circula pelas salas do restaurante-pizzaria, atenta e simpática: o pizzaiolo aqui era do supermercado X? Sim, mas foi ele que quis vir, se apressa a esclarecer. Tudo bem! Eu fiquei emocionada e
muito alegre. Encontrei-o! Nem sei seu nome, sei apenas de minha admiração por sua habilidade (roda a massa e a faz voar, como nos filmes) e pelo sabor intenso das pizzas.
Horas depois ri de mim mesma. Como pode tanta animação e alegria por reencontrar um pizzaiolo?
Descobri o que estava em questão: a minha facilidade de fazer vínculos!
Essa característica está na base de minha paixão por meu trabalho como psicoterapeuta: é aí que se constrói (mesmo que nem sempre) um vínculo emocional e afetivo que permite a abertura e o encontro sujeito-sujeito do processo terapêutico. É o vínculo que
permite, dia após dia, o crescimento da confiança em mim, elemento fundamental para o mergulho da pessoa dentro de si, o encontro com o desconhecido que pode fazer sofrer, mas que sempre ilumina a verdade libertadora.
Muitas vezes pensei que eu precisava (e ainda preciso, mesmo com mais de 40 anos de prática clinica) ser muito cuidadosa com esta minha facilidade de estabelecer vínculos com outros seres humanos. Porque algumas vezes, o outro não quer, ou não pode,
viver vínculos. E, assim, pode nascer e crescer um desencontro que impede ou transtorna a psicoterapia.
Não tenho uma fórmula para evitar isso. Aliás, não tenho fórmula para nada. Penso que viver é experimentar, é abrir-se para possibilidades na clareira na qual a existência se constitui. Mas ainda me inquieto quando percebo que a/o cliente reluta em confiar em mim, reluta em se expor e assim poder “examinar” e conhecer a origem e as manifestações de seus problemas, de sua ansiedade e sofrimento. E o acontecimento do vínculo não se manifesta. “Amaryllis” – falo para mim mesma - “cuidado com seu desejo de proximidade e sua relutância em deixar o outro ir, partir para um caminho que não me inclui”.
Pois é, meu trabalho é apaixonante, é intrigante e muitas vezes difícil. “Mexe” comigo, com minha história de vida, me leva a questionar sempre o que estou fazendo no trabalho terapêutico, nessa busca a dois (ou mais de dois, às vezes) do alívio do sofrimento, da procura pela alegria de viver e ser quem se é.
Acredito profundamente que a psicoterapia vale a pena.
Mesmo que ela me questione sempre – estou adequada no atendimento desta pessoa?
Será que busco um vínculo que é rejeitado e até pode se tornar um obstáculo ao encontro transformador?
E lá vou eu, fazendo vínculos vida a fora, dentro e fora do consultório. Ora lindos, ora muito ruins porque me fizeram sofrer e ... ora com um pizzaiolo que me faz feliz porque prepara uma pizza saborosa e desvela a riqueza de um bom trabalho.