01/03/2026
Nesse trecho da série O Monstro em Mim, a pergunta é direta e um tanto desconcertante: qual é o sentido de um organismo vivo desejar o próprio fim?
Foi exatamente essa pergunta que fez muitos rejeitarem Freud quando ele apresentou o conceito de pulsão de mo*rte. Como poderia haver, no interior da vida, uma tendência em direção ao seu contrário?
Mas Freud não falava apenas de mo*rte literal. Ele tentava nomear algo que observava repetidamente na clínica: a insistência humana em voltar ao que causa sofrimento, a repetição de relações destrutivas, a atração pelo perigo, a dificuldade de abandonar aquilo que já sabemos que nos faz mal.
A pulsão de mor*te aparece menos como desejo de aniquilação e mais como compulsão à repetição. Como se algo em nós preferisse o conhecido, o familiar, mesmo que doloroso, ao desconhecido que poderia ser diferente.
Na série, isso se encena de forma quase pedagógica. Há uma atração pelo limite, uma sedução do risco, uma reconstrução insistente da mesma dinâmica. Não é apenas escolha racional, mas com uma “compulsão à repetição”.
E isso não pertence apenas à ficção.
Ela aparece quando:
– insistimos em vínculos que nos desorganizam;
– sabotamos algo que estava começando a dar certo;
– criamos conflitos que poderíamos evitar;
– confundimos intensidade com amor.
Muitas vezes dizemos: “Eu sabia que isso ia acontecer.”
Mas ainda assim fomos.
A psicanálise não elimina essa força, porque ela faz parte da condição humana. Mas pode ajudar a torná-la consciente. Pode transformar repetição em elaboração. Pode deslocar o que parecia destino para o campo da escolha.
Talvez o ponto não seja negar que existe algo em nós que se aproxima do abismo. Talvez seja reconhecer isso antes que a repetição nos arraste, mais uma vez, para o mesmo lugar. E, a partir daí, apostar mais na vida.