29/04/2026
Nos últimos meses, minhas duas filhas passaram por situações difíceis com amizades.
Grupos que se fecham e um não pode ser amigo do outro. A lógica de “se você é amiga dela, não pode ser minha amiga” cria um campo onde qualquer movimento em direção a alguém pode significar a exclusão de outro.
E, muitas vezes, exigem que a adolescente abra mão de partes de si, de quem gosta, de quem é, do que sente, para não perder o grupo. Essas dinâmicas podem surgir do medo de perder vínculos importantes e da dificuldade, tão comum na adolescência, de lidar com inseguranças e exclusões.
Para os humanos, e mais ainda na adolescência, o sentimento de pertencimento a um grupo é de extrema importância, vital. Mas o processo de se tornar alguém exige, em algum momento, suportar fazer escolhas; o que inclui poder não abrir mão de partes importantes de si.
Isso coloca o adolescente num impasse: ou ele se diferencia e corre o risco de perder o grupo, ou ele se adapta e se afasta de si. E não é um impasse que se resolva de uma vez, vai se repetindo ao longo da vida.
A diferenciação implica suportar alguma solidão, alguma incerteza, alguma perda de pertencimento imediato. E isso não é pouco, especialmente nessa fase.
Como mãe, não há idealização possível. Dá raiva, dá vontade de intervir, de proteger, de impedir a dor. Mas isso é uma ilusão.
O que me cabe, e que não é pouco, é sustentar minhas filhas nesse processo de dor e diferenciação. Ajudá-las a atravessar essas experiências sem se abandonar; descobrir que é possível ir e vir entre os vínculos, tentar, sair, refazer caminhos, sem precisar perder a si mesmas para pertencer.
Porque crescer não é sobre encontrar um lugar onde não haja conflito. É sobre construir um lugar dentro de si que permita continuar existindo, mesmo quando a gente acha que não há lugar do lado de fora. Isso não se ensina. Se acompanha.
Ceyla Thaise Brilhante (CRP 05/74664)