10/01/2026
MANIFESTO DA SOBREVIVÊNCIA CONSCIENTE
Por: Dernivaldo Pereira de Souza
Vivemos um tempo invertido,
em que o curso natural da vida foi violentamente quebrado.
Um tempo em que pais enterram filhos,
em que o amanhã é roubado antes de amadurecer,
em que a dor aprendeu a chegar cedo demais
e a esperança, tarde demais.
Nesse mundo adoecido, envelhecer deixou de ser rotina
e passou a ser resistência.
Não é decadência.
Não é peso.
É prova.
É testemunho silencioso de quem atravessou tempestades
sem permitir que elas apagassem a própria chama.
Envelhecer, hoje, é um ato de obediência à vida.
Obediência não no sentido de submissão,
mas de fidelidade ao sopro que insiste em permanecer.
É dizer “sim” ao tempo mesmo quando ele fere.
É continuar respirando quando tantos tiveram o ar arrancado
antes da hora.
Cada ruga é uma linha escrita pela sobrevivência.
Cada fio branco é um memorial vivo
de batalhas que não aparecem nas fotografias.
O corpo envelhece, mas a consciência amadurece.
E há uma beleza grave, profunda e sagrada
em quem permaneceu de pé
quando tudo conspirava para a queda.
Poucos percebem essa conquista
porque vivemos anestesiados pela pressa,
pela ilusão da juventude eterna,
pela mentira de que valor está na aparência
e não na permanência.
Mas sobreviver não é pouco.
É um feito histórico íntimo.
É carregar dentro de si os que se foram
e ainda assim escolher viver com dignidade.
Envelhecer é honrar os ausentes.
É caminhar por aqueles que não puderam.
É carregar nomes que não envelhecerão jamais.
É tornar-se ponte entre o que foi interrompido
e o que ainda pode florescer.
Num mundo que normalizou o luto precoce,
chegar à maturidade é um prêmio silencioso.
Não vem com medalhas,
não gera manchetes,
mas sustenta o mundo invisivelmente.
São os sobreviventes conscientes
que guardam a memória,
que ensinam limites,
que sabem o valor de um amanhecer simples.
Viver mais tempo, hoje,
não é privilégio vazio —
é responsabilidade espiritual.
É aprender a amar com mais cuidado,
a falar com mais verdade,
a silenciar com mais respeito.
É entender que cada dia é um empréstimo precioso
e que a vida não é garantida,
é concedida.
Por isso, envelhecer não é perder tempo.
É vencer o tempo sem se tornar seu carrasco.
É permanecer humano
num mundo que ensina a desistir.
Aforismo de contemplação à vida:
Quando sobreviver se torna raro, envelhecer é a forma mais profunda de agradecer por estar vivo.
***Dernivaldo Pereira de Souza***
Um Despertar de Consciências Despertas!